Nas minhas andanças profissionais, o meu caminho cruzou-se com o de uma senhora francesa.
Vivia, em Paris, num pequeno apartamento daquelas ruas antigas, recheado de vivências.
Tinha os cabelos todos brancos. Um olhar conhecedor.
Vestia Jean Paul Gaultier. Mini saias de renda preta...
Na sua pele residiam as marcas de uma vida, que eu imaginava, plena.
Para apertar os atacadores dos sapatos colocava o pé em cima de uma cadeira, como o fazia quando era criança.
Ainda bem que a conheci. A sua postura, o seu modo de vida, ensinou-me a ver a essência das coisas.
Era daquelas pessoas que, apesar do invólucro que a continha, tinha o dom de nos distrair como o fazem os mágicos, desviando a nossa atenção para o essencial.
Nunca soube a sua idade. Para dizer a verdade, essa era uma questão totalmente secundária. Para quê? Qual a utilidade dessa informação? Certamente teria idade para ser minha avó.
Tinha o dom de apagar esse preconceito da cabeça dos que cativava, dos que viam mais longe. Deixando, quem quisesse perder tempo com essas coisas, rendido ao paradoxo.
Partilhava a cama e a vida com um rapaz da idade do seu filho, na casa dos trinta e tal.
Eram felizes, assim, há muitos anos.
Ne riez pas, n'y touchez pas. Gardez vos larmes et vos sarcasmes...
Serge Regianni, La Femme qui est dans mon lit

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