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| Pintura de Georges de La Tour |
Sob muitos nomes diferentes, e ataviadas com uma variedade infindável de trajes, estas figuras heróicas da experiência visionária do homem surgiram na arte religiosa de todas as culturas. Por vezes são representadas em repouso, por vezes a agir em contextos históricos ou mitológicos. A acção, porém, tal como já vimos, não é coisa natural por parte dos habitantes dos antípodas da mente. Atarefarmo-nos é a lei da nossa existência. A lei da existência deles é nada fazerem. Quando obrigamos estes estranhos impertubáveis a desempenharem um papel num dos nossos dramas excessivamente humanos, estamos a falsear a verdade visionária. É por isso que as representações mais arrebatadoras (embora não necessariamente as mais belas) dos "Querubins" são as que os retratam tal como se comportam no seu habitat natural — a não fazerem nada de especial.
E isso explica a impressão avassaladora e mais que meramente estética causada no observador pelas grandes obras-primas estáticas da arte religiosa. As figuras esculpidas dos deuses e reis-deuses egípcios, as Madonnas e as representações do Pantocrátor dos mosaicos bizantinos, os bodhisattvas e arhats da China, os Budas sentados do Camboja, as estelas e estátuas de Cópan, os ídolos de madeira da África tropical — todos partilham uma característica: a mais profunda imobilidade. E é precisamente isto que lhes dá o seu carácter exaltante, o seu poder de arrebatar quem os contempla do velho Mundo da experiência quotidiana e de os levar para muito longe, ao encontro dos antípodas visionários da psique humana."
Aldous Huxley, Portas da Percepção



