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Nada fazer

Pintura de Georges de La Tour
"Comecemos pelos habitantes humanos, destas regiões longínquas, Blake chamava-lhes Querubins. E, com efeito, eis o que, sem dúvida, eles são — os originais psicológicos daqueles seres que, na teologia de todas as religiões, servem de intermediários entre o homem e a Luz Pura. As personagens mais que humanas da experiência visionária nunca "fazem nada". (Da mesma forma, no Céu, os bem-aventurados nunca "fazem nada".) Contentam-se simplesmente em existir.
Sob muitos nomes diferentes, e ataviadas com uma variedade infindável de trajes, estas figuras heróicas da experiência visionária do homem surgiram na arte religiosa de todas as culturas. Por vezes são representadas em repouso, por vezes a agir em contextos históricos ou mitológicos. A acção, porém, tal como já vimos, não é coisa natural por parte dos habitantes dos antípodas da mente. Atarefarmo-nos é a lei da nossa existência. A lei da existência deles é nada fazerem. Quando obrigamos estes estranhos impertubáveis a desempenharem um papel num dos nossos dramas excessivamente humanos, estamos a falsear a verdade visionária. É por isso que as representações mais arrebatadoras (embora não necessariamente as mais belas) dos "Querubins" são as que os retratam tal como se comportam no seu habitat natural — a não fazerem nada de especial.

E isso explica a impressão avassaladora e mais que meramente estética causada no observador pelas grandes obras-primas estáticas da arte religiosa. As figuras esculpidas dos deuses e reis-deuses egípcios, as Madonnas e as representações do Pantocrátor dos mosaicos bizantinos, os bodhisattvas e arhats da China, os Budas sentados do Camboja, as estelas e estátuas de Cópan, os ídolos de madeira da África tropical — todos partilham uma característica: a mais profunda imobilidade. E é precisamente isto que lhes dá o seu carácter exaltante, o seu poder de arrebatar quem os contempla do velho Mundo da experiência quotidiana e de os levar para muito longe, ao encontro dos antípodas visionários da psique humana."
Aldous Huxley, Portas da Percepção









We think and a world shows up for us

Paul Cézanne,  Mont de Saint Victoire (1904 – 1905)    

 "A crua realidade é que a visão é como a arte. O que vemos não é real. Foi regulado para se moldar à nossa tela, que é o cérebro. Quando abrimos os olhos entramos num mundo de ilusão, numa cena separada pela retina e recriada pelo córtex. Interpretamos as nossas sensações do mesmo modo que um pintor interpreta uma pintura. Mas independentemente da precisão dos nossos mapas neurais, eles nunca resolverão a questão daquilo que vemos realmente, porque a visão é um fenómeno privado. A experiência visual transcende os píxeis da retina e as linhas fragmentadas do córtex visual.
     A arte, não a ciência, é que é o meio com que exprimimos o que vemos no exterior. Neste aspecto a pintura está mais próxima da realidade. É o que temos de mais parecido com a experiência."
Jonah Lehrer, in Proust Era Um Neurocientista

Em Serralves até 25 de Março. IMPERDÍVEL.



"A ironia só o receptor é que a percebe, mas não faço recurso dela. Acontece ou não. Depois do ponto de vista psicológico a explicação é que em criança era muito envergonhado e a minha vida era muito protegida e cedo tornei-me alcoólico e aquilo a que chama ironia é, provavelmente, o meu raciocínio oblíquo de bêbado. Tenho uma grande prática de conversa de copos a qual faço mesmo quando estou sóbrio. Portanto, a ironia provém de eu querer safar as situações tendo graça ou, se preferir, sendo engraçadinho."
Eduardo Batarda, em entrevista aqui.