of memory...

"The memorized text interacts with our temporal existence, modifying our experiences, being dialectically modified by them. The stronger the muscles of memory, the better guarded our integral self. Neither sensor nor state police can uproot the remembered poem [...] 
[...] Major epic literature, the founding myths begin to decay with the "advance" into writing. Consciousness is casting overboard its vital ballast.

Secondly, writing arrests, immobilizes discourse. It renders static the free play of thought. 

[...] It is no hyperbole to say that Socrates and Jesus stand at the pivot of our civilization. The passion narratives inspired by their deaths generate the inward alphabets, the encoded recognitions of much of our moral, philosophic, and theological idiom.

[...] My focus here is on teaching, on Mastery and discipleship, in Athens and in Galilee and Jerusalem. 

[...] Where much of Platonic doxa, voiced by Socrates, is articulated via myths, the marrow of Jesus's teaching inheres in parables  — an oral shorthand addressed to memorization. The epistemological status of these two modes, their validity and "truth functions," have been argued over perennially. A cardinal definition of genius points, I believe, to the capacity to originate myths, to devise parables. [...] They are open-ended in that they provoke inexhaustible multiplicities and potentialities of interpretation. They keep the human spirit off-balance. 

[...] But "analogy," itself so slippery a notion, does not get us very far. Like almost no others, the myths recounted by Plato, the parables offered by Jesus, incarnate — I use the word designedly — what is at once decisive and inexplicable in Mastery, in the art of teaching. The hunger of the soul, of the intellect, for meaning, compels the desciple (ourselves) to come back, over and over again, to these texts. This return, always frustrated yet always reborn, may take us as near as is possible to the concept of resurrection. Which is also,  I venture, a metaphor."

Lessons of the Masters, George Steiner

On teaching

"To teach seriously is to lay hands on what is most vital in a human being. It is to seek access to the quick and the innermost of a child's or an adult's integrity. A Master invades, he breaks open, he can lay waste in order to cleanse and to rebuild. Poor teaching, pedagogic routine, a style of instruction which is, consciously or not, cynical in its merely utilitarian aims, are ruinous. They tear up hope by its roots. Bad teaching is, almost literally, murderous and, metaphorically, a sin. It diminishes the student, it reduces to gray inanity the subject being presented. It drips into the child's or adult's sensibility that most corrosive of acids, boredom, the marsh gas of ennui. Millions have had mathematics, poetry, logical thinking, killed for them by dead teaching, by the perhaps subconsciously vengeful mediocrity of frustrated pedagogues.
[...]
The contrasting ideal of the true Master is no romantic fantasy or utopia out of practical reach. The fortunate among us will have met with  true Masters [...]. Often they remain anonymous: isolated school masters and mistresses who wake a child's or an adolescent's gift, who set obsession on its way. By lending a book, by staying after class willing to be sought out." [pag 18, 19]

Lessons of the Masters, George Steiner

da flagrante vivacidade

 "Mas o que devemos pensar dessa minha vontade em sobressair? Parte dela devia-se, certamente, a uma maior vivacidade, à impetuosidade do ladino que eu aprendera em criança e que me ofereceu um ritmo particular ao falar línguas mais lentas, como o alemão ou até o inglês. Mas não pode ter sido só isso: creio que o mais importante foi o querer sair-me bem perante a mãe. Ela esperava respostas imediatas, tudo o que não fosse imediato não servia. Quando, em Lausanne, ela me ensinou alemão em poucas semanas, justificou a rapidez com o êxito do método. Por isso, mais tarde, tudo se desenrolava ao mesmo ritmo. No fundo, tudo entre nós se passava como num palco de teatro: um falava, o outro replicava; as pausas longas eram excepções e tinham sempre um significado especial. Entre nós quase não aconteciam tais excepções; durante as nossas cenas tudo funcionava como um relógio, ainda um mal tinha acabado de falar e já o outro vinha com a réplica. Era graças a esta agilidade mental que eu me afirmava perante a minha mãe. Daí que eu sentisse a necessidade de aumentar a minha vivacidade natural para fazer boa figura diante da mãe. No contexto diferente da sala de aula, eu comportava-me como em casa. Actuava para com o professor como se ele fosse a minha mãe. A única diferença era que tinha de pôr o braço no ar antes de atirar a resposta. Mas ela vinha logo a seguir e os outros ficavam a ver navios. Nunca imaginei que este comportamento lhes pusesse os nervos em franja ou até os pudesse ofender. A atitude dos professores perante estes ímpetos era variada. Muitos sentiam a permanente reacção dos alunos como uma facilitação da aula. Era proveitoso para o seu próprio trabalho, pois o ambiente não ficava tão rígido, acontecia sempre qualquer coisa, e talvez sentissem que a sua exposição era boa quando provocava de imediato as reacções certas. Outros sentiam que era injusto e receavam alguns alunos de natureza mais morosa, tendo sempre diante de si aqueles que reagiam com rapidez, pudessem desistir da esperança de um dia terem êxito. Estes, que não deixavam de ter a sua razão, comportavam-se com frieza para comigo e consideravam-me pernicioso. Havia ainda, porém, os que se alegravam que se prestassem honras ao saber, e eram estes que estavam mais perto de vislumbrar os motivos da minha flagrante vivacidade.

Pois acredito que pertence ao saber o querer mostrar-se e não se satisfazer com uma mera existência escondida. A meu ver, perigoso é o saber mudo, pois torna-se cada vez mais mudo e, por fim, secreto, e depois tem de se vingar de ser secreto. O saber que sai para a luz do dia, que se transmite aos outros, é o saber de bom sentido, que decerto procura o reconhecimento, mas que não se volta contra ninguém. O contágio que vem dos professores e dos livros esforça-se por se expandir. Nesta fase inocente não duvida de si, ganha pé ao mesmo tempo que se espraia, irradia e deseja dilatar tudo consigo. Atribui-se-lhe as propriedades da luz, a velocidade com que se quer expandir é a mais elevada, e presta-se-lhe homenagem ao designá-lo como iluminação. Sob esta forma conheceram-no os gregos antes de ser arrumado à força em compartimentos por Aristóteles. Ninguém acredita que fosse perigoso antes de ser partido em pedaços e armazenado. Heródoto parece-me a expressão mais pura de um saber que era inocente porque tinha de se irradiar. As divisões que faz são as dos povos, que falam e vivem de modo diferente. Não realça as divisões quando fala nelas, mas cria espaço em si para a diversidade, e por sua vez cria espaço naqueles que por ele são informados. Existe um pequeno Heródoto em cada jovem que ouve falar de centenas de coisas, e é importante que ninguém procure educá-lo afastando-o desse saber, esperando que venha a restringir-se a uma única profissão.

Ora a parte essencial de uma vida que começa a apreender conhecimentos é vivida na escola, a primeira experiência pública de um jovem. É perfeitamente possível que queira distinguir-se, mas, muito mais do que isso, procurará irradiar o saber logo que o conquiste, para que não seja uma mera posse. Os colegas mais lentos pensarão que tal jovem quer adular os professores, e considerá-lo-ão ambicioso. No entanto, ele não tem nenhuma meta em vista que queira atingir, quer justamente ir além dessas metas e incluir os professores no seu ímpeto por liberdade. Não se mede pelos colegas, mas pelos professores. Sonha em retirar deles todas as noções de utilitarismo; quer ultrapassá-las. Ama, com um amor efusivo, apenas os professores que não se renderam aos seus propósitos utilitários, os que querem irradiar o seu saber pelo saber em si – a estes presta homenagem quando reage, nas suas aulas, com celeridade, a estes agradece incessantemente o seu derramar incessante.

Mas, com tal homenagem, isola-se dos demais, sob cujos olhos ela se desenrola. Não lhes presta atenção enquanto deles se destaca. Não há nele qualquer má vontade, mas deixa-os à margem do jogo, eles não desempenham qualquer papel, são meros espectadores. Como não estão arrebatados,como esse jovem, pela essência do professor, não são capazes de acreditar que ele o esteja, e são levados a pensar que ele está a agir com fins menos nobres. Guardam-lhe rancor por um espectáculo em que não lhes cabe qualquer papel, e talvez o invejem um pouco por causa da sua perseverança. Mas, acima de tudo, consideram-no um desmancha-prazeres, alguém que perturba a natural animosidade deles para com o professor e, no seu interesse, mas à vista deles, a transforma em homenagem."

Elias Canetti, A Língua Resgatada [pag 263]

Goals...

 "A nossa mesada, de tão modesta que era, não teria sido suficiente, embora a poupássemos quase toda para esse fim. Mas eu também recebia todos os dias uns tostões para ir comprar um bolo ao bedel para a merenda das dez. Eu sentia fome, mas era muito mais entusiasmante poupar este dinheiro até ter que chegasse para oferecer um livro novo à mãe. Antes de mais, eu tinha de ir à Rascher saber o preço, e já era um prazer visitar aquela livraria no Cais do Limmat, sempre cheia de gente, estar com as pessoas que, muitas vezes, nos faziam perguntas acerca dos nossos futuros presentes, e naturalmente também abarcar com o olhar todos os livros que eu haveria de ler um dia. Não era tanto por me sentir mais crescido e mais responsável no meio desses adultos, mas pela promessa de leituras futuras, que nunca se esgotariam. Pois se havia coisa que, nesses dias, de facto me preocupava em relação ao futuro, era a disponibilidade de livros no mundo. O que aconteceria quando eu já os tivesse lido todos? É certo que eu preferia ler aquilo de que gostava uma e outra vez, mas essa alegria pressupunha a certeza de que mais e mais livros se seguiriam.

Depois de saber o preço do planeado presente, começavam as contas: Quantas merendas das dez teria eu de poupar para conseguir juntar o suficiente? Eram sempre alguns meses: moeda a moeda, lá se materializava o livro. Face a este objectivo, nem sequer se punha a tentação de, pelo menos uma vez, como faziam alguns dos meus colegas, comprar de facto um bolo e comê-lo à frente dos outros. Pelo contrário, sempre que um deles estava a comer o seu bolo, gostava de ficar ao seu lado e imaginar, com uma espécie de comprazimento – não sei exprimi-lo de outra maneira –, a surpresa da minha mãe quando lhe passássemos o livro para a mão."

A Língua Resgatada, Elias Canetti

Leituras 2025

Um ano bom.