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Post truths / legitimizing reality through discourse / Narratives

Martin Luther
Thomas Aquinas
"The practicing of legitimizing economic paradigms by creating grand cosmological narratives to accompany them is an age-old practice. Contemporary historians point to St. Thomas Aquinas's description of creation as a Great Chain of Being during the feudal era as a good example of the process of framing a cosmology that legitimizes the existing social order. Aquinas argued that the proper workings of nature depend on a labyrinth of obligations among God's creatures. While each creature differs in intellect and cpabilities, the diversity and equality is essential to the orderly functioning of the overall system. If all creatures were equal, St. Thomas reasoned, then they could not act for the advantage of others. By making each creature different, God established a hierarchy of obligations in nature that, if faithfully carried out, allowed the creation to flourish.

St. Thomas's description of God's creation bears a striking resemblance to the way feudal society was set up: everyone's individual survival depended on them faithfully performing their duties within a rigidly defined social hierarchy. Serfs, knights, lords, and the pope were all unequal in degree and kind but obligated to serve others by the feudal bonds of fealty.

[...] The cosmology of the Protestant Reformation that accompanied the soft proto-industrial revolution of the late medieval era performed a similar legitimizing role. Martin Luther launched a frontal attack on the church's notion of the Great Chain of Being, arguing that it legitimized the corrupt hierarchal rule of the pope and the papal administration over the lives of the faithful. The Protestant theologian replaced the church's feudal cosmology with a worldview centered on the personal relationship of each believer with Christ. The democratization of worship fit well with the new communication/energy/transportation matrix that was empowering the new burgher class."

Jeremy Rifkin, Zero Marginal Cost Society [pa 70, 71]


D. Quixote e os moinhos / narrativas

"Viver com a fantasia é muito mais fácil porque esta dá sentido ao sofrimento.
Os sacerdotes descobriram este princípio há milhares de anos, que subjaz a inúmeras cerimónias e mandamentos religiosos. Se quer que as pessoas acreditem em entidades imaginárias como os deuses e as nações, deve fazer com que elas sacrifiquem algo que lhes seja valioso. Quanto mais doloroso for o sacrifício, mais acreditarão na existência real do recetor imaginário. Umcamponês pobre que sacrifique um boi valioso a Júpiter ficará convencido de que Júpiter existe mesmo porque, de outra forma, como é que poderia justificar tamanha estupidez? O camponês continuará a sacrificar mais bois apenas para não ter de admitir que todos os outros bois foram sacrificados em vão. É precisamente pela mesma razão que, se eu sacrifiquei um filho para a glória da nação italiana ou as minhas pernas em nome da revolução comunista, isso é geralmente o quanto baste para me tornar um fanático nacionalista italiano [Batalha de Caporetto] ou um comunista fervoroso. Porque, se os mitos nacionais italianos e a propaganda comunista não passarem de mentiras, serei obrigado a reconhecer que a morte do meu filho ou a minha amputação foram completamente inúteis. Poucas pessoas têm essa coragem."
Yuval Noah Harari, Homo Deus


Sting, Russians

Ver, também, o conto de Jorge Luís Borges, "Um Problema":

Um problema

Imaginemos que em Toledo é encontrado um papel com um texto arábico e que paleógrafos o declaram um de punho e letra daquele Cide Hamete Benengeli de quem Cervantes derivou o Dom Quixote. No texto lemos que o herói (que, como se sabe, percorria os caminhos da Espanha, armado de espada e lança, e desafiava qualquer um por qualquer motivo) descobre, no final de um e seus muitos combates, que deu morte a um homem. Neste ponto cessa o fragmento; o problema é adivinhar, ou conjeturar, como reage Dom Quixote. Que eu saiba, há três respostas possíveis. A primeira é de índole negativa; nada especial acontece, porque no mundo alucinatório de Dom Quixote a morte não é menos comum que a magia e ter matado um homem não tem por que abalar quem se bate, ou acredita bater-se, com endríagos e encantadores. A segunda é patética. Dom Quixote jamais conseguiu esquecer que era uma projeção de Alonso Quijano, leitor de histórias fabulosas; ver a morte, compreender que um sonho o levou á culpa de Caim, desperta-o de sua consentida loucura talvez para sempre. A terceira talvez seja a mais verossímil. Morto aquele homem, Dom Quixote não pode admitir que o ato tremendo é obra de um delírio; a realidade do efeito o faz pressupor uma igual realidade da causa e Dom Quixote não sairá nunca de sua loucura. Resta outra conjetura, que é alheia ao orbe espanhol e mesmo ao orbe do Ocidente e requer um âmbito mais antigo, mais complexo mais fatigado. Dom Quixote \u2014 que já não é Dom Quixote, mas um rei dos ciclos do Industão \u2014 intui diante do cadáver do inimigo que matar e gerar são atos divinos ou mágicos que notoriamente transcendem a condição humana. Sabe que o morto é ilusório, como também são a espada sangrenta que lhe pesa na mão e ele mesmo e toda sua vida pretérita e os vastos deuses e o universo.

Jorge Luís Borges