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Era uma vez um menino que não tinha irmãos.
Os pais, por não terem a possibilidade de lhe dar um irmão ou uma irmã, sentiam-se muito tristes, e achavam que, se dessem sempre muita atenção ao menino, ele nunca havia de sentir a falta de uma companhia para brincar.
Acontece que o menino era feliz, assim, sem irmãos.
Gostava de brincar sozinho.
Aprendeu a criar o seu cantinho e a conversar com os seus bonecos.
Não sentia a falta de irmãos pois não sabia como era tê-los!
Mas os pais, aflitos, andavam sempre de roda dele, enchendo-o de cuidados, sugestões, prendas e... «olha vai lá para fora brincar com os outros meninos...», «olha, come mais um bocadinho para ficares forte como o Popeye...», «cuidado que está frio!», «veste a camisola, não te esqueças de pentear o cabelo...» «pareces tão sozinho!» «o que fazes com a porta fechada? anda para junto de nós!»
O menino gostava muito dos pais, mas, às vezes sentia-se, sufocado.
Eram tantos os desvelos que o menino foi criando uma terrível necessidade de ter o "SEU" cantinho.
Um espaço secreto onde ninguém pudesse entrar.
O que nem sempre era fácil, pois ele desejava transportá-lo para toda a parte. Ou seja: para onde quer que fosse...
Quando o menino se fez homem, ganhou o hábito de andar pela sombra, rente aos muros, por ruas pouco frequentadas, receando permanentemente pôr em risco o seu sossego.
Desenvolveu um gosto por locais escondidos, recatados, onde passasse pouca gente. Locais que não ficavam a caminho de nada. Sentia algum desconforto quando as pessoas gostavam de estar com ele e de conversar com ele. Desconfiava se a mesma pessoa lhe fazia duas perguntas seguidas ou insistia em convidá-lo para sair e para se divertirem.
Enfim, o menino transformara-se num homem solitário, que soubera assegurar a sua toca. Porém, a toca era feita exactamente à sua medida e, quando lhe apetecia convidar alguém para o visitar, sentia um enorme desconforto, porque lhe parecia que não cabiam duas pessoas, à vontade, no refúgio que construíra.
Então ficava triste, pensando que tinha conquistado um cantinho à sua medida mas, na verdade, nunca lhe tinha passado pela cabeça que a sua medida poderia e deveria chegar para partilhar momentos, alegrias e tormentos com os outros.

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