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legados

"Devo todos os meus gostos à influência de amigos que encontrei, como se não pudesse aceitar o mundo senão através das mãos humanas. Recebi de Jacinta o gosto pelas flores, de Filipe o gosto das viagens, de Celeste o gosto pela medicina, de Alexis o gosto pelas rendas. Por que não receber de ti o gosto pela morte."
Marguerite Yourcenar, in Fogos

Heranças

"Devo todos os meus gostos à influência de amigos que encontrei, como se não pudesse aceitar o mundo senão através das mãos humanas. Recebi de Jacinta o gosto pelas flores, de Filipe o gosto das viagens, de Celeste o gosto pela medicina, de Alexis o gosto pelas rendas. Por que não receber de ti o gosto pela morte."
Marguerite Yourcenar, in Fogos

Silêncios


"Este velho, que toda a sua vida trocara uma verdade clara por uma verdade ainda mais luminosa, um belo rosto amado por outro ainda mais belo, trocava enfim a morte lenta e banal que lhe preparavam dentro de si as artérias, por uma morte mais útil, mais justa, engendrada pelos seus actos, nascida dele como uma filha devotada que viesse sentar-se a seu lado na cama ao cair da noite. Esta morte suficientemente sólida para durar alguns séculos em torno da sua lembrança, inseria-se na sequência de bons actos de que a sua vida fora constituída e prolongava o seu caminho para uma vida eterna. [...] Este sábio compreendera, sem dúvida, que a única razão de ser das áleas do Discurso, que incansavelmente percorrera durante toda a vida, é de conduzirem à beira do silêncio onde bate o coração dos deuses. Chega sempre o momento em que aprendemos a calar-nos, talvez por nos tornarmos finalmente dignos de escutar, em que deixamos de agir porque aprendemos a olhar fixamente qualquer coisa de imóvel, e essa sabedoria deve ser a dos mortos."
Marguerite Yourcenar, in Fogos

Fogo!


"Solidão... Não creio como os outros crêem, não vivo como eles vivem, não amo como eles amam... Morrerei como eles morrem.
[...]
... enviuvou e pode finalmente chorar sem que lhe perguntem porquê;
[...]
Para me poder matar, a morte precisará da minha cumplicidade.
[...]
O crime do louco, é que ele se prefere a tudo. Essa preferência ímpia repugna-me nos que amam. A criatura amada é para esses avaros apenas uma peça de ouro onde crispar os dedos. Não é mais que um deus; é apenas uma coisa. Recuso-me a fazer de ti um objecto, mesmo que seja o Objecto Amado."
Fogos, de Marguerite Yourcenar

Da intensidade



"Trata-se sempre de concretizar o sentimento ou a ideia em formas tornadas em si mesmas preciosas (o termo é, por si, revelador), como essas gemas que devem a densidade e o brilho às pressões e temperaturas quase insuportáveis por que passaram; ou ainda de obter da linguagem as volutas perfeitas dos trabalhos renascentistas em ferro forjado, cujos complicados entrelaçados foram primeiro de ferro ao rubro. O que se pode dizer de pior sobre essas audácias verbais é que aquele que a elas se dedica corre o perpétuo risco do abuso e do excesso, tal como o escritor votado aos litotes clássicos roça constantemente o perigo da seca elegância e da hipocrisia.
Se o leitor não vê, muitas vezes, mais do que preciosismo (no mau sentido da palavra) naquilo a que chamo de bom grado expressionismo barroco, é, nove em cada dez vezes, porque o poeta cedeu efectivamente ao desejo de espantar, de agradar ou desagradar a qualquer preço; acontece por vezes também que esse mesmo leitor é incapaz de ir até ao fim de uma ideia ou emoção que o poeta lhe oferece, onde erradamente, só vê metáforas forçadas e frios conceitos."
Marguerite Yourcenar, in Fogos

Marcas

"... nada mais frágil que o equilíbrio dos lugares belos. As nossas fantasias de interpretação deixam intactos os próprios textos, que sobrevivem aos nossos comentários; mas a menor restauração imprudente infligida às pedras, a menor estrada macadamizada cortando um campo onde a erva crescia em paz desde há séculos criam para sempre o irreparável. A beleza afasta-se; a autenticidade também."
Marguerite Yourcenar, in Memórias de Adriano

“A biblioteca é o hospital de alma.”

M.Yourcenar, Memórias de Adriano


“Procuremos entrar na morte de olhos abertos.” - M.Yourcenar, Memórias de Adriano