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Sigmund e Anna – Um pai que não podia tolerar ninguém acima de si.

"As pessoas estarão cientes de que Anna foi analisada pelo pai? A partir de 1918, quando manifestou o desejo de se tornar também analista, deitou-se no divã, todos os dias. Na época, eu não via nisso mais do que um favor que ele lhe fazia. Mais um favor. Mas muito em breve me interroguei. Ela vivia com ele e, além disso, confidenciava-lhe o que não se diz a ninguém. Os pensamentos secretos, os desejos mais vergonhosos. Pensamentos, desejos esses, que lhe diziam respeito a ele, essencialmente. Sigmund publicara, 1919, um artigo intitulado "Uma criança é espancada". Anna, pelo seu lado, no Congresso de Berlim, em 1922, proferiu uma conferência que incidia sobre os fantasmas da fustigação numa rapariga, exactamente sobre o mesmo tema. Naquela altura, ela ainda não tinha doentes e, portanto, não podia falar senão de si mesma. Ora, tratava-se de fantasmas incestuosos entre pai e filha. Tudo era trazido para a praça pública, numa exibição que não enganou ninguém. Talvez uma maneira de afrontar as críticas, de as antecipar. Ou, então, estavam os dois de tal forma cegos que não viam que se podiam achar aí motivo de censura? Aliás, não houve ninguém que ousasse levantar a menor reserva, em todo o caso.
Sigmund era já sagrado e, havia muito, intocável.

Para mim, não é esse, contudo, o ponto essencial. Não percebo como pôde ele aceitar, daquela mulher nova, que se deixasse aprisionar em definitivo por essa psicanálise, sabendo que Anna tinha consigo uma relação de amor exclusivo e excessivo. Por mais que fosse um génio, como era capaz de evitar que aquele laço, no qual estava tão implicado quanto ela, não se consolidasse assim para sempre? Estou certa de que tal passo, em lugar de exercer um papel libertador, apenas fez estreitar mais os nós que os ligavam. O resultado foi visível. Anna jamais largou o pai, tornou-se na sua única colaboradora, na sua voz nos congressos, na sua herdeira espiritual. Foi a sua guarda na doença – mais próxima do seu corpo do que de qualquer outra pessoa.

Em 1925, Sigmund ofereceu-lhe um cão, um pastor-alemão que a devia defender durante os seus passeios. O Wolf.

Para ambos, o animal assemelhava-se a um filho. Davam-lhe de comer à mesa, cúmplices num jogo que me era insuportável. Cúmplices em tudo. O mesmo se passou com a amizade que particular que Anna estreitou com Dorothy, no ano em causa. Sigmund tudo fez para que esta se desenrolasse perto de si, quase debaixo dos seus olhos, na mesma teia das relações amorosas, familiares e analíticas. Aliás, foi Dorothy que lhe ofereceu o seu primeiro cão, o seu primeiro chow-chow. Não existia qualquer fronteira, qualquer limite. O magma. Para que jamais se separassem.

Sem dúvida, as pessoas julgam que a minha filha beneficiou daquela singular situação. Claro que tinha prestígio por causa do nome do pai e do adubamento com que ele a gratificou oficialmente, em vida. Mas bastava olhá-la para se perceber que não se achava à altura de tal destino. A identificação com o pai é uma impostura que não pode passar despercebida a ninguém. Anna é inteligente, sem dúvida, mas pobre e sem génio. Que criou ela? Na análise de crianças, de que retira a glória de ser fundadora, acho bem mais interessante o trabalho de Melanie Klein, sua rival, que não se limita a uma pedagogia vagamente tingida de psicanálise. Anna não fez mais do que aplicar, escolarmente, as teorias do pai. Como é que ninguém se dá conta?

Acho-a sobretudo alienada, estereiizada, sob todos os pontos de vista, pelo que o pai lhe impôs. A força do seu próprio desejo. Ele chamava-lhe a sua Antígona, esperando sublinhar assim o heroísmo que mostrava a seu favor. De facto, ele desvelava a origem incestuosa daquele amor: Antígona, filha de Édipo... Pergunto-me, às vezes, porque o inventor do extraordinário utensílio de libertação que é a psicanálise não se conseguiu aproveitar dele pessoalmente. No que se chama a sua auto-análise, ele parou, forçosamente, num limite que desconhecia. Acho uma pena que não tenha podido continuar a experiência mais tarde, com um dos seus alunos. Com certeza era impossível, de tal modo estes estavam aterrorizados pelo monstro em que ele se tornara, a seus olhos. Um deus vivo. A maneira como se conduziam com ele dá uma ideia daquele terror. também teria faltado, por parte do Sigmund, uma humildade que estava longe de possuir. Agarrava-se ao seu estatuto de pai da psicanálise. Um pai que não podia tolerar ninguém acima de si.

Nicolle Rosen, in Martha Freud

Freud e Fausto

"Perguntava-me então se o Sigmund, sem o confessar nem a si mesmo, não acabava de introduzir na psicanálise uma nova dimensão que fazia parte do desconhecido, do inconhecível. Do limite no qual o humano se fere. Daquilo que o ultrapassa.
Ele estava em posição de dizer que se mantinha sempre dentro das fronteiras da ciência, mas eu não estava certa de ele não invocar, naquela nova elaboração da teoria, talvez até a contragosto, o tal além de que as religiões testemunham, cada qual à sua maneira. Sem dúvida era essa a razão pela qual os mais racionalistas dos seus alunos se tinham oposto com furor à nova concepção das coisas.
E talvez fosse por isso que o Sigmund se via obrigado, para se defender deles, a repetir os seus ataques à religião. Talvez acabasse de se ter ferido naquilo que sempre se negara a admitir, que a psicanálise, a sua criação, tinha limites.
Penso numa citação que, numa carta ao Stefan Zweig — de que eu soube recentemente —, fora buscar ao Fausto, de Goethe. Escrevera, a propósito da fuga do Joseph Breuer perante a gravidez nervosa de Bertha Pappenheim: Tinha na mão a chave que nos teria aberto as Portas das Mães, mas deixou-a cair. Apesar dos seus grandes dons, não havia nele nada de faustiano. Aquela referência não me era estranha. Goethe fora sempre um dos meus autores preferidos — eu lera e relera o seu Fausto. Mas não conseguia descobrir o local onde se falava naquelas enigmáticas "Portas das Mães" para compreender a que se referia ele. Tratava-se do Segundo Fausto em que Mefistófeles evoca as deusas capazes de fazer aparecer Helena e Páris, bem como o sítio onde elas residem. Tirei o livro da estante e reencontrei estes versos magníficos:
Majestosas, as deusas reinam na solidão; Em torno de si não há lugar, e ainda menos tempo; Falar delas é perturbante; São as Mães.
E a Fausto, que lhe pergunta qual o caminho para as encontrar, ele responde: Não há caminho! É no trilhado, no que nenhum pode calcar; um caminho para o indesejado, para o inacessível. Estás pronto? Nem fechaduras nem ferrolhos a abrir; vaguearás nas solidões. Tens ideia do vazio, da solidão?
Aquele texto sempre me impressionara pela sua beleza imponente e a língua admirável do poeta. Mas o mais emocionante era o que fazia ressoar de mistério, de desconhecido, o que evocava dum alhures inacessível onde se acharia, escondida, a explicação derradeira dos enigmas que o homem defronta. Aquele texto era místico, não restavam quaisquer dúvidas, e fiquei admirada por o meu marido, o notório ateu, o racionalista intratável, se referir a ele. Mas, talvez, disseram-me na época, não fosse senão uma das suas citações literárias em que era useiro e vezeiro.
Hoje não estou assim tão certa disso. Se o Breuer não era faustiano', o Sigmund, esse, não me restam dúvidas, teve sempre a ambição de o ser. Muito novo, via-se como um expugnador, um conquistador, como ele dizia, um homem que enfrentaria todos os perigos para descobrir terras ignotas. E não o foi? Não era o herói intrépido que vencera todas as provas para descobrir os segredos dissimulados no mais profundo do ser humano? Não era, tal como Édipo, aquele que havia resolvido o enigma da Esfinge? Não tivera de lutar com os seus próprios demónios, ultrapassar as suas angústias, bater-se com a adversidade, para aceder a um lugar de que nenhum outro ousara pisar o limiar? Não tinha lançado um desafio à ordem reinante, aos pais moralizadores, ao próprio Deus, e não se sentia, como todos os fundadores, investido duma missão que o colocava acima dos outros homens, que o levava a vaguear, como diz o poeta, nas solidões?
Mas, num certo momento da sua vida, chegara a um ponto onde o não trilhado, o indesejado, o inacessível, se revelaram mais inquietantes do que os arcanos do inconsciente. Não se tratava já, pura e simplesmente, dos mistérios, afinal bem anódinos, da sexualidade, mas daqueles que o homem enfrenta quando se trata da sua morte. E devo dizer que, pela primeira vez, me senti em profundo acordo com a sua pesquisa.
Nicolle Rosen, in Martha Freud

Humanos, demasiado humanos

"O mais doloroso era ter de guardar no íntimo todo o sofrimento. Não me sentia no direito de me queixar — aliás, ninguém teria compreendido que o fizesse. E ele, durante esse tempo, deixara de me dar parte de tudo o que o agitava, de tudo o que o atormentava. Daí em diante, era a outros que confiava as suas emoções, as suas dores, as suas ilusões, as suas decepções. Quanto a mim, ele não poderia suportar a ideia, disso estava certa, de que eu pudesse sofrer com qualquer faceta da minha vida. O meu marido tinha necessidade de me julgar insensível, inalterável, tão sólida como uma rocha. A rocha na qual se apoiava. Era uma esposa perfeita, uma mãe perfeita. Um prodígio de equilíbrio e de bom-senso. E, aos olhos de todos, constituíamos uma família ideal.

 Mas, então, eu já não podia desempenhar aquela comédia. Chegara ao limite.

A mãezinha teve, então, uma reacção pasmosa. Desatou a rir. Como podia ela?... De mim, que lhe tinha confiado toda a minha dor, todo o meu desgosto?... Olhava-a, siderada. Ela abraçou-me.

— Não estou a fazer troça de ti, minha filha — murmurou. — Mas devo confessar que acho divertido ver a que ponto o teu marido, o ateu do teu marido, se conduz exactamente como o mais dos ortodoxos. Com certeza sabes, ou talvez te tenhas esquecido, que é isso que, nos talmudistas, se exige duma mulher: fazer tudo para que o marido tenha tempo de sobra para estudar. Ele, não sei o que ele estuda, mas com certeza que, para si, tem o mesmo valor que o Talmude para os nossos barbudos.

Olhou-me meigamente e, com um gesto muito doce, enxugou uma lágrima que me corria pela cara. Não me disse mais nada sobre o assunto."

Nicolle Rosen, in Martha Freud