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da familiaridade

Fui ao YouTube à procura dum clip do filme Smoke, em que William Hurt conta a história do escritor russo, Bakhtin, que escondido dos nazis no seu apartamento, usa, uma a uma, as páginas do manuscrito de um ensaio ao qual tinha dedicado dez anos de trabalho, como mortalhas para enrolar os seus cigarros.


Não encontrei esse clip. Encontrei outros em que, entretanto, me perdi deliciada.

O filme, Smoke (guião de Paul Auster), é um dos que, sem sombra de dúvida, levaria comigo para uma ilha deserta. William Hurt e Harvey Keitel são gigantes. 

O que adoro neste filme, neste grande 'conto' feito de pequenos contos — histórias partilhadas, episódios de vidas, registos de momentos que, por sua vez, contam outras histórias — é o subtil fio condutor daquilo que nos é familiar enquanto espécie humana.

Nada melhor do que uma tabacaria de esquina onde o 'disfarce'/denominador comum é o fumo. O 'fumo' reúne diversidade. Uma amostra de diversidade numa tabacaria de esquina (claro!).

 #avidadebairroéfixe #nãoSomosUmBandoDeDesconhecidos

 

Platão no Matrix

"No interior de uma gruta, uns indivíduos permanecem acorrentados de costas para uma fogueira chamejante. Os reclusos só vêem o movimento das sombras projectadas sobre as paredes da caverna, e essas sombras constituem a sua única realidade. Finalmente, um deles liberta-se da clausura e aventura-se a sair da caverna, rumo ao mundo que se estende para além das hipnóticas projeções. Neste relato há um belíssimo convite à dúvida, à não conformação com as aparências, à quebra das amarras e ao abandono dos preconceitos para olhar para a realidade de frente. A saga cinematográfica Matrix adaptou a mensagem rebelde desta alegoria ao mundo contemporâneo da realidade virtual, da aldeia mediática, dos mundos paralelos da publicidade e do consumismo, dos boatos da Internet e das autobiografias maquilhadas que fabricamos para as redes sociais."


Irene Vallejo, O Infinito num Junco [pag 209]