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do hermético, do obscuro e da arrogância, da Europa continental [Portugal incluído] e dos anglo-saxões


"Os recentes êxitos de livros sobre ciência relacionam-se com a natureza interdisciplinar de muitos dos novos trabalhos científicos. Os professores escrevem para colegas de outras disciplinas. Por isso, têm de fazê-lo em linguagem simples, evitando o jargão da área a que se dedicam. Se eu escrevesse um livro apenas para filósofos — a minha área —, fá-lo-ia desse modo e pelas mesmas razões. Sei que este problema do jargão existe em todas as disciplinas, mas na filosofia põe-se logo à partida. Grande parte dos falsos problemas que surgem em filosofia provêm do facto de especialistas falarem para especialistas. O maior pecado que um especialista pode cometer quando fala com outro é explicitar o assunto, <>, o que é insultuoso. Por isso, quando se trata de clarificar um assunto, os especialistas cometem sempre erros. Não se apercebem de que não partilham pressupostos comuns. E chegam-se a tremendos campos de conflito, consequência de mal-entendidos de base, bastante simples a um nível mais baixo.

Existe uma diferença profunda entre a tradição universitária anglófona e europeia. Na Europa continental, os professores falam do alto das suas cátedras, nas suas torres de marfim, debitando a sua sapiência, e o aluno toma notas e não faz perguntas; se são difíceis de entender e inacessíveis, melhor para eles — compensa. É assim que se consegue uma reputação — sendo obsuro. O mesmo não se passa na tradição universitária de língua inglesa, pelo menos com tanta intensidade. Não sei qual é a relação com a ciência, mas vê-se que essa atitude também influencia a escrita não científica, semicientífica ou filosófica dos cientistas do continente europeu."
Daniel C. Dennett, in A Terceira Cultura, de John Brockman

do hermético

O maior pecado que um especialista pode cometer quando fala com outro é explicitar o assunto, 'descer o nível', o que é insultuoso. Por isso, quando se trata de clarificar um assunto, os especialistas cometem sempre erros. Não se apercebem de que não partilham pressupostos comuns. E chegam-se a tremendos campos de conflito, consequência de mal-entendidos de base, bastante simples a um nível mais baixo.
Existe um diferença profunda entre a tradição universitária anglófona e a
europeia. Na Europa continental, os professores falam do alto das suas cátedras, nas suas torres de marfim, debitando a sua sapiência, e o aluno toma notas e não faz perguntas; se são difíceis de entender e inacessíveis, melhor para eles — compensa. É assim que se consegue uma reputação — sendo-se obscuro. O mesmo não se passa na tradição universitária de língua inglesa, pelo menos com tanta intensidade. Não sei qual é a relação com a ciência, mas vê-se que essa atitude também influencia a escrita não científica, semicientífica ou filosófica dos cientistas do continente europeu. Jacques Monod e François Jacob constituem dois exemplos. Aspiravam a ser filósofos da Europa continental, o que os levou a águas mais escuras e profundas do que aquelas em que eram capazes de nadar.

Daniel C. Dennett, in A Terceira Cultura