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of memory...

"The memorized text interacts with our temporal existence, modifying our experiences, being dialectically modified by them. The stronger the muscles of memory, the better guarded our integral self. Neither sensor nor state police can uproot the remembered poem [...] 
[...] Major epic literature, the founding myths begin to decay with the "advance" into writing. Consciousness is casting overboard its vital ballast.

Secondly, writing arrests, immobilizes discourse. It renders static the free play of thought. 

[...] It is no hyperbole to say that Socrates and Jesus stand at the pivot of our civilization. The passion narratives inspired by their deaths generate the inward alphabets, the encoded recognitions of much of our moral, philosophic, and theological idiom.

[...] My focus here is on teaching, on Mastery and discipleship, in Athens and in Galilee and Jerusalem. 

[...] Where much of Platonic doxa, voiced by Socrates, is articulated via myths, the marrow of Jesus's teaching inheres in parables  — an oral shorthand addressed to memorization. The epistemological status of these two modes, their validity and "truth functions," have been argued over perennially. A cardinal definition of genius points, I believe, to the capacity to originate myths, to devise parables. [...] They are open-ended in that they provoke inexhaustible multiplicities and potentialities of interpretation. They keep the human spirit off-balance. 

[...] But "analogy," itself so slippery a notion, does not get us very far. Like almost no others, the myths recounted by Plato, the parables offered by Jesus, incarnate — I use the word designedly — what is at once decisive and inexplicable in Mastery, in the art of teaching. The hunger of the soul, of the intellect, for meaning, compels the desciple (ourselves) to come back, over and over again, to these texts. This return, always frustrated yet always reborn, may take us as near as is possible to the concept of resurrection. Which is also,  I venture, a metaphor."

Lessons of the Masters, George Steiner

On teaching

"To teach seriously is to lay hands on what is most vital in a human being. It is to seek access to the quick and the innermost of a child's or an adult's integrity. A Master invades, he breaks open, he can lay waste in order to cleanse and to rebuild. Poor teaching, pedagogic routine, a style of instruction which is, consciously or not, cynical in its merely utilitarian aims, are ruinous. They tear up hope by its roots. Bad teaching is, almost literally, murderous and, metaphorically, a sin. It diminishes the student, it reduces to gray inanity the subject being presented. It drips into the child's or adult's sensibility that most corrosive of acids, boredom, the marsh gas of ennui. Millions have had mathematics, poetry, logical thinking, killed for them by dead teaching, by the perhaps subconsciously vengeful mediocrity of frustrated pedagogues.
[...]
The contrasting ideal of the true Master is no romantic fantasy or utopia out of practical reach. The fortunate among us will have met with  true Masters [...]. Often they remain anonymous: isolated school masters and mistresses who wake a child's or an adolescent's gift, who set obsession on its way. By lending a book, by staying after class willing to be sought out." [pag 18, 19]

Lessons of the Masters, George Steiner

da flagrante vivacidade

 "Mas o que devemos pensar dessa minha vontade em sobressair? Parte dela devia-se, certamente, a uma maior vivacidade, à impetuosidade do ladino que eu aprendera em criança e que me ofereceu um ritmo particular ao falar línguas mais lentas, como o alemão ou até o inglês. Mas não pode ter sido só isso: creio que o mais importante foi o querer sair-me bem perante a mãe. Ela esperava respostas imediatas, tudo o que não fosse imediato não servia. Quando, em Lausanne, ela me ensinou alemão em poucas semanas, justificou a rapidez com o êxito do método. Por isso, mais tarde, tudo se desenrolava ao mesmo ritmo. No fundo, tudo entre nós se passava como num palco de teatro: um falava, o outro replicava; as pausas longas eram excepções e tinham sempre um significado especial. Entre nós quase não aconteciam tais excepções; durante as nossas cenas tudo funcionava como um relógio, ainda um mal tinha acabado de falar e já o outro vinha com a réplica. Era graças a esta agilidade mental que eu me afirmava perante a minha mãe. Daí que eu sentisse a necessidade de aumentar a minha vivacidade natural para fazer boa figura diante da mãe. No contexto diferente da sala de aula, eu comportava-me como em casa. Actuava para com o professor como se ele fosse a minha mãe. A única diferença era que tinha de pôr o braço no ar antes de atirar a resposta. Mas ela vinha logo a seguir e os outros ficavam a ver navios. Nunca imaginei que este comportamento lhes pusesse os nervos em franja ou até os pudesse ofender. A atitude dos professores perante estes ímpetos era variada. Muitos sentiam a permanente reacção dos alunos como uma facilitação da aula. Era proveitoso para o seu próprio trabalho, pois o ambiente não ficava tão rígido, acontecia sempre qualquer coisa, e talvez sentissem que a sua exposição era boa quando provocava de imediato as reacções certas. Outros sentiam que era injusto e receavam alguns alunos de natureza mais morosa, tendo sempre diante de si aqueles que reagiam com rapidez, pudessem desistir da esperança de um dia terem êxito. Estes, que não deixavam de ter a sua razão, comportavam-se com frieza para comigo e consideravam-me pernicioso. Havia ainda, porém, os que se alegravam que se prestassem honras ao saber, e eram estes que estavam mais perto de vislumbrar os motivos da minha flagrante vivacidade.

Pois acredito que pertence ao saber o querer mostrar-se e não se satisfazer com uma mera existência escondida. A meu ver, perigoso é o saber mudo, pois torna-se cada vez mais mudo e, por fim, secreto, e depois tem de se vingar de ser secreto. O saber que sai para a luz do dia, que se transmite aos outros, é o saber de bom sentido, que decerto procura o reconhecimento, mas que não se volta contra ninguém. O contágio que vem dos professores e dos livros esforça-se por se expandir. Nesta fase inocente não duvida de si, ganha pé ao mesmo tempo que se espraia, irradia e deseja dilatar tudo consigo. Atribui-se-lhe as propriedades da luz, a velocidade com que se quer expandir é a mais elevada, e presta-se-lhe homenagem ao designá-lo como iluminação. Sob esta forma conheceram-no os gregos antes de ser arrumado à força em compartimentos por Aristóteles. Ninguém acredita que fosse perigoso antes de ser partido em pedaços e armazenado. Heródoto parece-me a expressão mais pura de um saber que era inocente porque tinha de se irradiar. As divisões que faz são as dos povos, que falam e vivem de modo diferente. Não realça as divisões quando fala nelas, mas cria espaço em si para a diversidade, e por sua vez cria espaço naqueles que por ele são informados. Existe um pequeno Heródoto em cada jovem que ouve falar de centenas de coisas, e é importante que ninguém procure educá-lo afastando-o desse saber, esperando que venha a restringir-se a uma única profissão.

Ora a parte essencial de uma vida que começa a apreender conhecimentos é vivida na escola, a primeira experiência pública de um jovem. É perfeitamente possível que queira distinguir-se, mas, muito mais do que isso, procurará irradiar o saber logo que o conquiste, para que não seja uma mera posse. Os colegas mais lentos pensarão que tal jovem quer adular os professores, e considerá-lo-ão ambicioso. No entanto, ele não tem nenhuma meta em vista que queira atingir, quer justamente ir além dessas metas e incluir os professores no seu ímpeto por liberdade. Não se mede pelos colegas, mas pelos professores. Sonha em retirar deles todas as noções de utilitarismo; quer ultrapassá-las. Ama, com um amor efusivo, apenas os professores que não se renderam aos seus propósitos utilitários, os que querem irradiar o seu saber pelo saber em si – a estes presta homenagem quando reage, nas suas aulas, com celeridade, a estes agradece incessantemente o seu derramar incessante.

Mas, com tal homenagem, isola-se dos demais, sob cujos olhos ela se desenrola. Não lhes presta atenção enquanto deles se destaca. Não há nele qualquer má vontade, mas deixa-os à margem do jogo, eles não desempenham qualquer papel, são meros espectadores. Como não estão arrebatados,como esse jovem, pela essência do professor, não são capazes de acreditar que ele o esteja, e são levados a pensar que ele está a agir com fins menos nobres. Guardam-lhe rancor por um espectáculo em que não lhes cabe qualquer papel, e talvez o invejem um pouco por causa da sua perseverança. Mas, acima de tudo, consideram-no um desmancha-prazeres, alguém que perturba a natural animosidade deles para com o professor e, no seu interesse, mas à vista deles, a transforma em homenagem."

Elias Canetti, A Língua Resgatada [pag 263]

Goals...

 "A nossa mesada, de tão modesta que era, não teria sido suficiente, embora a poupássemos quase toda para esse fim. Mas eu também recebia todos os dias uns tostões para ir comprar um bolo ao bedel para a merenda das dez. Eu sentia fome, mas era muito mais entusiasmante poupar este dinheiro até ter que chegasse para oferecer um livro novo à mãe. Antes de mais, eu tinha de ir à Rascher saber o preço, e já era um prazer visitar aquela livraria no Cais do Limmat, sempre cheia de gente, estar com as pessoas que, muitas vezes, nos faziam perguntas acerca dos nossos futuros presentes, e naturalmente também abarcar com o olhar todos os livros que eu haveria de ler um dia. Não era tanto por me sentir mais crescido e mais responsável no meio desses adultos, mas pela promessa de leituras futuras, que nunca se esgotariam. Pois se havia coisa que, nesses dias, de facto me preocupava em relação ao futuro, era a disponibilidade de livros no mundo. O que aconteceria quando eu já os tivesse lido todos? É certo que eu preferia ler aquilo de que gostava uma e outra vez, mas essa alegria pressupunha a certeza de que mais e mais livros se seguiriam.

Depois de saber o preço do planeado presente, começavam as contas: Quantas merendas das dez teria eu de poupar para conseguir juntar o suficiente? Eram sempre alguns meses: moeda a moeda, lá se materializava o livro. Face a este objectivo, nem sequer se punha a tentação de, pelo menos uma vez, como faziam alguns dos meus colegas, comprar de facto um bolo e comê-lo à frente dos outros. Pelo contrário, sempre que um deles estava a comer o seu bolo, gostava de ficar ao seu lado e imaginar, com uma espécie de comprazimento – não sei exprimi-lo de outra maneira –, a surpresa da minha mãe quando lhe passássemos o livro para a mão."

A Língua Resgatada, Elias Canetti

Leituras 2025

Um ano bom.

After - A mente e o cérebro

 "In addition, recent neuroimaging studies of people under the influence of psychedelic drugs have shown that the elaborate mystical experiences associated with these drugs are accompanied by 'decreased' brain activity. This is the exact opposite of what we had expected. Traditional neuroscientific explanations of psychedelic drug trips assumed that psychedelic drugs like LSD and psilocybin increase brain activity, triggering hallucinations. But it appears that they instead decrease brain activity, particularly in the prefrontal cortex, and also sharply decrease the kind of synchronised electrical activity in the brain that is typically seen with complex thinking. This decrease in brain activity might reduce the brain's ability to filter the mind and permit access to mystical experiences. This is consistent with spiritual traditions from around the world that use choking, breath-holding, starvation, and extended sensory deprivation to induce mystical experiences."

After, Dr. Bruce Greyson [pag 191]

Caminhos

"Em breve percebi que iria fazer basicamente o que Stella quisesse, porque era eu quem a amava mais. 
 [...] Ao redor de algumas pessoas o espaço é o espaço delas e, se nos quisermos aproximar, temos de atravessar o território delas, de maneira que são sobretudo elas que ditam a maneira como devemos comportar-nos diante delas.
[...] Se não tivesse tido aquela ideia anormal de ser feliz, nada daquilo teria acontecido. Quem foi que lhe disse que tinha o direito de querer tanto? Quem é que tem? Não existe esse direito [...].
[...] Simon estava envergonhado, petrificado de vergonha. Os seus segredos estavam a ser revelados. Segredos! Que segredos tão grandes eram esses? Pensar-se-ia que eram do tamanho dos Himalaia. Mas na verdade nada mais eram do que o seu mal gerido esforço de viver. De viver e de não morrer. Era disso que estava com vergonha."

A Aventuras de Augie March, Saul Bellow 

Deve ser por isto que começo a amar os Russos

"Nós, os Russos, nunca tivemos desses tolos e etéreos românticos alemães, e sobretudo franceses, sobre os quais nada tem efeito, nem que a terra se fenda, nem que toda a França pereça nas barricadas  — eles continuam os mesmos, nem por decência  mudarão, e continuarão a cantar as suas canções etéreas, por assim dizer, até ao fim da vida, porque são parvos. Mas entre nós, na terra russa, não há parvos; isso é sabido; é nisso que nos distinguimos de todas as terras alemãs. Por conseguinte, também não se encontram entre nós as naturezas etéreas na sua forma pura. Foram os nossos publicistas e críticos <<positivos>> de então, na sua caça aos Kostanjoglo e aos tiozinhos Piotr Ivánovitch que por toleima tomavam, pelo nosso ideal, que imaginaram os nossos românticos, tornando-os tão etéreos como na Alemanha ou em França. Pelo contrário, as características do nosso romântico são completa e directamente opostas às do etéreo europeu, e não há nenhum padrão europeu que lhe sirva. (Mas permitam-me que use esta palavra: <<romântico>> — uma palavrinha antiga, digna, honesta e conhecida de toda a gente.) As características do nosso romântico são compreender tudo, ver tudo e frequentemente ver com mais clareza do que o que veem os nossos espíritos mais positivos; não se submeter a nada nem a ninguém, mas ao mesmo tempo não desprezar nada; contornar tudo, ceder em tudo, proceder sempre como político com toda a gente; nunca perder de vista um objectivo útil, prático (um apartamentozito do Estado, uma reformazita, umas condecorações) — divisar esse objectivo para lá de todos os entusiasmos e volumes de poesia lírica e ao mesmo tempo conservar em si, indefectível, <<o belo e o sublime>> até ao fim da sua vida, e já agora conservar-se a si próprio embrulhado em algodão, como uma qualquer peça de joalharia, nem que seja, por exemplo, a bem desse mesmo <<belo e sublime>>. O nosso romântico é um homem de visitas largas, e o primeiro velhaco de todos os velhacos, garanto-vos... e até por experiência. Isto, é claro, se o romântico for inteligente. Mas, que digo eu! Um romântico é sempre inteligente, eu só queria observar que, embora houvesse entre nós alguns românticos parvos, isso não conta e apenas porque eles ainda no auge das suas forças se transformavam definitivamente em alemães e, para conservarem de maneira mais cómoda a sua preciosa joalharia, iam instalar-se algures em Weimar ou na Floresta Negra. Eu, por exemplo, desprezava sinceramente o meu emprego e só por necessidade não me marimbava para ele, porque estava ali e era dali que recebia dinheiro. Como resultado, reparem, em todo o caso não me marimbava. O nosso romântico, mais depressa enlouquece (o que, de resto, é muito raro acontecer) do que abandonará, se não tiver outra carreira em vista, e é daqueles que nunca são despedidos, mais depressa o levam para o manicómio como <<rei de Espanha >>, e mesmo assim só se ele estiver muito louco. Mas entre nós só os enfezados e os petulantes enlouquecem. A grande maioria dos românticos acaba por alcançar postos importantes. Uma extraordinária polivalência! E que capacidade para as sensações mais contraditórias! Eu já na altura me consolava com isso e ainda penso da mesma maneira. É por isso que temos entre nós tantas <<índoles generosas>>, que mesmo na última das degradações não perdem o seu ideal; e embora não levantem um dedo pelo seu ideal, embora sejam uns rematados bandidos e ladrões, em todo o caso respeitam até às lágrimas o seu ideal primeiro e na sua alma são extraordinariamente honestos. Sim, senhores, só entre nós o mais rematado patife pode ser absolutamente e até altamente honesto na sua alma, sem que ao mesmo tempo deixe de ser um patife. Repito, pois a cada passo de entre os nossos românticos saem por vezes uns velhacos tão hábeis (uso a palavra <<velhacos>> com amor), revelam um tal sentido da realidade e mostram de repente um conhecimento  tão positivo, que os chefes pasmados e o público se limitam a estalar as línguas de estupefação."

Fiódor Dostoievski, in Memórias do Subterrâneo [pg 49]

Drug stats

 "In 2009 David Nutt was the chair of the UK's government's Advisory Council on t Misuse of Drugs. He shared the view I have described here: that drugs should be legally classified based on how harmful each drug is to individuals and to others. So, for example, if heroin is the most dangerous drug it should be the most restricted drug with the harshest punishment attached to its possession or distribution; if alcohol is the least dangerous drug, that would justify legal access compared to other recreational drugs. This method of classification seems so rational that many people in the UK probably assume it happens de facto, and by extension assume that alcohol is the safest drug because it is one of the easiest to acquire. 


This metric of risk has been quantified by Nutt and his team in multiple papers. In one study, to come up with an unbiased way to determine the 'danger' of a drug, they calculated a score for each drug based on various types of harms: mortality rate, damage to physical health (e.g. cirrhosis; viruses), the degree to which it impaired mental functioning, likelihood of injury, committing a crime, family adversities, economic cost to society and so on (there were sixteen types of harms in total, nine describing harms to oneself and seven describing harms to others in society). Once these dangers were combined mathematically, each drug was given a relative score to every other drug, such that a drug scoring 50 was half as harmful as one that scored 100. Because not all types of harms are equally bad this was also reflected in the drug's score: drug-related mortality  – the extent to which your life is shortened by that particular drug  – was mathematically weighted as the most important harm of all. 


The drug with the highest score on this danger scale overall (across both self and other danger categories) is alcohol. Alcohol scored over 70 on the scale of relative harm. This is because although the top three most dangerous drugs for harm to oneself are heroin, crack cocaine  and methamphetamine, alcohol is the drug associated with the highest danger of harm to others (and is also associated with a relative high danger of harm to oneself). Tobacco placed sixth  – less harmful than alcohol, heroin and cocaine.


In comparison, other recreational drugs such as magic mushrooms were associated with almost no harm at all. In fact, ecstasy,  LSD and magic mushrooms were all at the bottom of the chart with scores of almost zero (in the case of magic mushrooms, actually zero) for danger to others; both scored below 10 for harm to oneself.  Cannabis,  although more harmful than mushrooms, was still less harmful than alcohol and a little bit less harmful than tobacco. 

This scale was first developed and used to rate alcohol along with other drugs in a paper from 2007. Two years later Nutt wrote an editorial in the 'Journal of Psychopharmacology' arguing that the risks involved in horse riding – which is associated with one serious adverse event per approximately 350 'exposures' – exceeded those associated with the drug ecstasy, which is associated with one serious adverse event per approximately 10,000 exposures. (The article was entitled 'Equasy – An overlooked addiction with implications for the current debate on drug harms'.) Later that year Nutt made a statement that alcohol was more dangerous than many illegal drugs, leading to his subsequent dismissal from the position on the government's Advisory Council.  But although his statement  – and the 'Equasy' article – was undoubtedly provocative, it was also doing exactly what it should do: using scientific evidence to advise policy about the relative risk of recreational drugs."

Camilla Nord, in The Balanced Brain [pg 134-136]

de Godots

"Lembrou-se do célebre mito do 'banquete' de Platão: dantes, em tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas e Deus separou-os em duas metades, que, desde então, erram pelo mundo à procura uma da outra. Amar é desejar essa metade perdida de nós próprios. 

Admitamos que assim seja: que cada um de nós tenha algures no mundo um par com o qual constituía em tempos um único corpo. A outra metade de Tomas é a rapariga com quem ele sonhou. Mas nunca ninguém há-de encontrar a outra metade de si próprio. Em vez dela, mandam-lhe uma Tereza dentro de uma cesta ao sabor das águas. Mas o que acontecerá depois, se encontrar realmente a mulher que lhe estava destinada, a outra metade de si próprio? Qual é que deve preferir? A mulher que encontrou numa cesta ou a mulher do mito de Platão?"

Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser [pag270]

A insustentável leveza do ser

"[...] o fim que se persegue está sempre oculto. Uma rapariga que quer um marido,  quer uma coisa que desconhece completamente. O rapaz que anda em busca da glória não faz a mínima ideia do que a glória é. O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida."

Milan Kundera in, A Insustentável Leveza do Ser [pag 141]

Quando a infantilidade nos tira do sério...

Quando se valoriza mais a aparência (comportamento) do que a substância, o resultado é a paranóia.

Quando a paranóia vem de cima, instala-se o medo e, consequentemente, a obediência cega dos temerosos e acomodados. Obediência motivada pelo impulso de agradar, de mostrar serviço. 

Entretanto, os que se indignam, e se rebelam, pegando em armas e participando em manifestações anti regime, são alvo de perseguição e, quando apanhados, são humilhados. Servem de bode espiatório. São como canais através dos quais os fracos — os que desesperam por validação — expurgam a sua culpa e frustrações.

O bullying institucionalizado. 
A infantilização da sociedade.

 Reflexão inspirada em memórias que me vieram à cabeça, espoletadas por esta leitura:

"Nos países comunistas, a inspecção e controlo dos cidadãos são actividades sociais permanentes e essenciais. Um pintor, para ser autorizado a expor, um simples cidadão, para obter um visto para passar férias à beira-mar, um futebolista, para poder jogar na selecção nacional, têm primeiro que recolher os mais variados relatórios e certificados (da porteira, dos colegas, da polícia, da célula do partido, do comité da empresa), que depois são amontoados, sopesados, lidos e relidos por funcionários especialmente afectos a essa tarefa. O que vem escrito nos atestados não tem absolutamente nada a ver com a competência de um cidadão para pintar ou jogar à bola ou com um estado de saúde que exija uma estada à beira-mar. Só contêm informações a respeito de uma coisa que é o chamado "perfil político" do cidadão (aquilo que o cidadão diz, aquilo que pensa, a maneira como se comporta, se vai ou não às reuniões e aos desfiles do 1° de Maio). Como tudo (vida quotidiana, empréstimos, férias) depende da forma como se é classificado, todos os cidadãos são obrigados (para poderem jogar na selecção nacional, expor os seus quadros ou passar férias à beira-mar) a comportar-se de maneira a ser bem classificados."

Milan Kundera, in A Sustentável Leveza do Ser [pag 115]

Bullying


A respeito de bullying e das suas etapas, desde a humilhação inicial do considerado mais fraco/diferente, passando pela cobardia de quem assiste ao espectáculo sem nada fazer, até ao 'virar o bico ao prego' acusando a real vítima.

Uma portentosa descrição de E  E. Cummings:

"Os da promenade tinham-se mostrado particularmente barulhentos,pensei. Agora subiam para O Quarto Enorme fazendo um estardalhaço verdadeiramente tremendo. Mal as portas se abriram entraram por ali dentro meia dúzia de sujeitos frenéticos,que começaram imediatamente a falar-me numa qualquer coisa terrível que o meu amigo noir tinha acabado de fazer. Ao que parece o Marrano da Gabardina Cintada tinha puxado o lenço de Jean( a prenda de Lulu de outros tempos )que Jean trazia sempre conspicuamente no bolso do peito;que Jean agarrou a cabeça do Marrano entre as duas mãos,segurou-a firmemente,baixou a sua própria cabeça,e enfiou no impotente Marrano uma valente cabeçada que mais parecia de um touro — o impacto da cabeça de Jean no nariz do Marrano fez com que o bem conhecido apêndice fosse ocupar uma nova posição nas proximidades da orelha direita. B corroborou a descrição,acrescentando que o nariz do Marrano estava partido e que todos estavam a atirar-se a Jean por lutar de maneira tão pouco desportiva. Fui dar com Jean ainda zangadíssimo,e sobretudo muito magoado por todos agora o evitarem. Disse-lhe que pessoalmente tinha ficado contente com o que ele tinha feito;mas nada conseguia animá-lo. O Marrano estava agora a entrar,com um aspecto horroroso de se ver,tendo sido remendado por Monsieur Richard com copiosos emplastros. O nariz não estava partido,disse ele numa voz pastosa,mas simplesmente encurvado. Aludiu obscuramente aos sarilhos que esperavam le noir;e recebeu a comiseração de todos os presentes exceto Mexique,O Zulu,B e eu. O Zulu,estou-me a lembrar,apontou para o seu próprio nariz( que não era nada insignificante ),depois para Jean,e depois fez uma careta de excruciante angústia,com uma audível piscadela de olho.

Jean tinha-se ido abaixo. O quase unânime veredicto contra ele tinha convencido a sua alma extremamente sensível que tinha agido mal. Deixou-se ficar estendido imóvel,sem uma palavra para ninguém. 

Pouco depois de la soupe,cerca das oito horas,O Marrano Brigão e o da Gabardina Cintada atiraram-se de repente a Jean Le Nègre sem nenhum motivo;e desataram a espancá-lo cruelmente. Abatido pelos remorsos aquele magnífico pilar de músculos — que podia ter matado facilmente os seus atacantes com um só golpe — não só não respondeu à violência como se recusou inclusivamente a defender-se. Sem oferecer resistência,com esgares de dor,os braços levantados mecanicamente e de cabeça baixa,foi empurrando entre murros assustadores até à janela ao lado da sua cama,e daí até ao canto( derrubando o banco do pissoir ),depois ao longo da parede até à porta. À medida que o castigo aumentava Jean gritava como uma criança : "Laissez-moi tranquille!" — incessantemente;e a voz dele foi ganhando rapidamente um tom de loucura. Por fim,num uivo de dor,precipitou-se para a janela mais próxima;e enquanto os Marranos unidos o esmurravam ele gritava por socorro para o planton postado em baixo. —

A consternação e os aplausos sem paralelo causados por esta batalha unilateral tinham há algum tempo alarmado as autoridades. Estava eu ainda a tentar abrir caminho por entre as filas com uma largura de cinco pessoas que formavam um círculo de espectadores( entre elas O Estafeta,que me aconselhou a desistir e que recebeu em troca um outro bom conselho ) — quando a porta se escancarou com tremendo estrondo;e entraram quatro plantons de revólver em punho,com um medo de morte no rosto,seguidos pelo Surveillant que empunhava uma espécie de bastão e gritava debilmente : "Qu'est-ce que c'est!" Ao primeiro ruído da porta a abrir-se os dois Marranos tinham-se escapado,e armavam-se agora em espectadores inocentes. Só se via Jean em cena. Tinha a boca aberta. Os olhos enormes. Arquejava como se o coração estivesse prestes a rebentar. Mantinha ainda os braços levantados como se visse diante de si novos inimigos. Havia sangue a salpicar aqui e ali o maravilhoso tapete de chocolate da sua pele,e todo o corpo luzia de suor.
A camisa sobre a bela musculatura estava em farrapos.

Sete ou oito pessoas desataram à uma a explicar a rixa ao Surveillant,que não percebia nada do que lhe contavam e então chamou à parte um velhote de confiança para ouvir a versão dele. Saíram os dois do compartimento. Os plantons,vendo o esperado lobo transformado em cordeiro,brandiam os revólveres em torno de Jean e ameaçavam-no na desprezível e vil linguagem que os plantons usam com aqueles que podem brutalizar. Jean não parava de repetir debilmente "laissez-moi tranquille. Ils voulaient me tuer".
O peito estremecia terrivelmente com os soluços profundos.

O Surveillant voltou e fez um discurso,a dizer que tinha recebido independentemente uma das outras as versões de quatro homens,que delas se concluía que le nègre era absolutamente o culpado,que le nègre tinha causado um imperdoável transtorno às autoridades e que como castigo o nègre iria agora sofrer as consequências da sua culpa no cabinot."

E. E. Cummings, O Quarto Enorme

miséria...

"Na altura pareceu-me intensamente interessante que,no caso de um certo tipo de seres humanos,que quanto mais cruéis são os sofrimentos que lhes são infligidos mais cruéis eles se tornam para com os que têm a infelicidade de serem mais fracos ou mais miseráveis do que eles. Ou talvez devesse dizer que quase todos os seres humanos,colocados em situações suficientemente miseráveis,irão reagir de vez em quando a essas mesmas situações( causa da mutilação da sua personalidade  )através da deliberada mutilação de outra personalidade mais fraca ou já mais mutilada. Diria mesmo que isto é absolutamente óbvio. Não estou a dizer que seja alguma descoberta. Pelo contrário,limito-me a afirmar aquilo que me interessou particularmente durante a minha estadia em La Ferté : estou a dizer que me tocou extremamente ver que,por mais ocupados que mantenham sessenta homens a sofrer em comum,há sempre um ou dois ou três que conseguem sempre arranjar tempo para fazer alguns dos seus camaradas gozar um pequeno sofrimento extra."

E. E. Cummings, O Quarto Enorme [pag 266]

Caminhar, uma repetição

 "Caminhar faz aflorar aos lábios de forma natural uma poesia repetitiva, palavras simples como o ruído de passos num trilho. Podemos encontrar um outro eco da caminhada na prática do canto de salmos nos chamados "coros alternados", em que um coro canta (numa só nota) um verso e o outro responde-lhe. Esta prática coral permite a alternância do canto e da escuta. Acima de tudo, ela gera um efeito de repetição que Santo Ambrósio compara com o rumor do mar: quando as vagas se quebram suavemente junto à costa, a regularidade do som não só não rompe o silêncio, mas ritma-o e torna-o mais audível. É assim com a salmodia, que no vaivém das respostas alternadas produz na alma, diz Ambrósio, uma quietude feliz. Estes cânticos em eco, o fluxo e refluxo das vagas, assemelham-se ao movimento alternado das pernas na caminhada. Nesse caso, não se trata de quebrar, mas de ritmar e tornar sensível a presençado mundo. Tal como Claudel escreveu que o som torna o silêncio acessível e útil, importaria dizer que a caminhada torna a presença acessível e útil.

Há na caminhada um poder imenso da repetição do Mesmo."

Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros

Caminhar

"Platão propõe a metáfora da lamparina. Para atendê-la, é preciso fornecer-lhe uma chama do exterior. A centelha são os livros.  O que se obtém do seu contacto frequente não é a possibilidade de enceleirar aquisições, como um tesouro de verdades que aumentaria a cada leitura (a cada "aquisição" de conhecimentos), mas a possibilidade de se obter combustível. Chega o momento, diz Platão, em que o pensamento se alimenta da alma, qual chama de óleo na lamparina. Tem o bastante para durar, para que a chama brilhe sem que seja preciso reacender incessantemente a mecha. O pensamento acaba por se alimentar da alma. Por conseguinte, podemos subtrair os livros sem que a filosofia se extinga.

O caminhante nunca tem a paisagem diante de si. Não é o viajante apressado que salta da viatura, olha, assinala, avalia, tira a sua fotografia e volta a partir com a "captura" — esteve ali, viu, tem a prova. Um vestígio já morto, contabilizável em pixeis.

Pelo contrário, o caminhante envolve a paisagem e é por ela envolvido. Mescla os vincos. De resto, quase não a vê. Respira-a, inspira-a e expira-a por todos os poros, a cada passo que dá.  A presença das colinas sedimenta-se suavemente nele como uma erosão invertida: ele retém-nas no seu corpo. A caminhada reqflecte o corpo na paisagem (e inversamente), como a filosofia reflecte a alma no pensamento. O caminhante e o filósofo debatem-se com o mesmo enugma: o da presença. A resolução passa por nela permanecer longamente, penetrá-la de forma interminável, habitá-la. O filósofo tem com os seu conceitos a mesma relação que o caminhante tem com a paisagem. Não há outra recompensa a esperar que não a familiaridade."

Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros

How not to age