of memory...
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On teaching
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da flagrante vivacidade
"Mas o que devemos pensar dessa minha vontade em sobressair? Parte dela devia-se, certamente, a uma maior vivacidade, à impetuosidade do ladino que eu aprendera em criança e que me ofereceu um ritmo particular ao falar línguas mais lentas, como o alemão ou até o inglês. Mas não pode ter sido só isso: creio que o mais importante foi o querer sair-me bem perante a mãe. Ela esperava respostas imediatas, tudo o que não fosse imediato não servia. Quando, em Lausanne, ela me ensinou alemão em poucas semanas, justificou a rapidez com o êxito do método. Por isso, mais tarde, tudo se desenrolava ao mesmo ritmo. No fundo, tudo entre nós se passava como num palco de teatro: um falava, o outro replicava; as pausas longas eram excepções e tinham sempre um significado especial. Entre nós quase não aconteciam tais excepções; durante as nossas cenas tudo funcionava como um relógio, ainda um mal tinha acabado de falar e já o outro vinha com a réplica. Era graças a esta agilidade mental que eu me afirmava perante a minha mãe. Daí que eu sentisse a necessidade de aumentar a minha vivacidade natural para fazer boa figura diante da mãe. No contexto diferente da sala de aula, eu comportava-me como em casa. Actuava para com o professor como se ele fosse a minha mãe. A única diferença era que tinha de pôr o braço no ar antes de atirar a resposta. Mas ela vinha logo a seguir e os outros ficavam a ver navios. Nunca imaginei que este comportamento lhes pusesse os nervos em franja ou até os pudesse ofender. A atitude dos professores perante estes ímpetos era variada. Muitos sentiam a permanente reacção dos alunos como uma facilitação da aula. Era proveitoso para o seu próprio trabalho, pois o ambiente não ficava tão rígido, acontecia sempre qualquer coisa, e talvez sentissem que a sua exposição era boa quando provocava de imediato as reacções certas. Outros sentiam que era injusto e receavam alguns alunos de natureza mais morosa, tendo sempre diante de si aqueles que reagiam com rapidez, pudessem desistir da esperança de um dia terem êxito. Estes, que não deixavam de ter a sua razão, comportavam-se com frieza para comigo e consideravam-me pernicioso. Havia ainda, porém, os que se alegravam que se prestassem honras ao saber, e eram estes que estavam mais perto de vislumbrar os motivos da minha flagrante vivacidade.
Pois acredito que pertence ao saber o querer mostrar-se e não se satisfazer com uma mera existência escondida. A meu ver, perigoso é o saber mudo, pois torna-se cada vez mais mudo e, por fim, secreto, e depois tem de se vingar de ser secreto. O saber que sai para a luz do dia, que se transmite aos outros, é o saber de bom sentido, que decerto procura o reconhecimento, mas que não se volta contra ninguém. O contágio que vem dos professores e dos livros esforça-se por se expandir. Nesta fase inocente não duvida de si, ganha pé ao mesmo tempo que se espraia, irradia e deseja dilatar tudo consigo. Atribui-se-lhe as propriedades da luz, a velocidade com que se quer expandir é a mais elevada, e presta-se-lhe homenagem ao designá-lo como iluminação. Sob esta forma conheceram-no os gregos antes de ser arrumado à força em compartimentos por Aristóteles. Ninguém acredita que fosse perigoso antes de ser partido em pedaços e armazenado. Heródoto parece-me a expressão mais pura de um saber que era inocente porque tinha de se irradiar. As divisões que faz são as dos povos, que falam e vivem de modo diferente. Não realça as divisões quando fala nelas, mas cria espaço em si para a diversidade, e por sua vez cria espaço naqueles que por ele são informados. Existe um pequeno Heródoto em cada jovem que ouve falar de centenas de coisas, e é importante que ninguém procure educá-lo afastando-o desse saber, esperando que venha a restringir-se a uma única profissão.
Ora a parte essencial de uma vida que começa a apreender conhecimentos é vivida na escola, a primeira experiência pública de um jovem. É perfeitamente possível que queira distinguir-se, mas, muito mais do que isso, procurará irradiar o saber logo que o conquiste, para que não seja uma mera posse. Os colegas mais lentos pensarão que tal jovem quer adular os professores, e considerá-lo-ão ambicioso. No entanto, ele não tem nenhuma meta em vista que queira atingir, quer justamente ir além dessas metas e incluir os professores no seu ímpeto por liberdade. Não se mede pelos colegas, mas pelos professores. Sonha em retirar deles todas as noções de utilitarismo; quer ultrapassá-las. Ama, com um amor efusivo, apenas os professores que não se renderam aos seus propósitos utilitários, os que querem irradiar o seu saber pelo saber em si – a estes presta homenagem quando reage, nas suas aulas, com celeridade, a estes agradece incessantemente o seu derramar incessante.
Mas, com tal homenagem, isola-se dos demais, sob cujos olhos ela se desenrola. Não lhes presta atenção enquanto deles se destaca. Não há nele qualquer má vontade, mas deixa-os à margem do jogo, eles não desempenham qualquer papel, são meros espectadores. Como não estão arrebatados,como esse jovem, pela essência do professor, não são capazes de acreditar que ele o esteja, e são levados a pensar que ele está a agir com fins menos nobres. Guardam-lhe rancor por um espectáculo em que não lhes cabe qualquer papel, e talvez o invejem um pouco por causa da sua perseverança. Mas, acima de tudo, consideram-no um desmancha-prazeres, alguém que perturba a natural animosidade deles para com o professor e, no seu interesse, mas à vista deles, a transforma em homenagem."
Elias Canetti, A Língua Resgatada [pag 263]
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Goals...
"A nossa mesada, de tão modesta que era, não teria sido suficiente, embora a poupássemos quase toda para esse fim. Mas eu também recebia todos os dias uns tostões para ir comprar um bolo ao bedel para a merenda das dez. Eu sentia fome, mas era muito mais entusiasmante poupar este dinheiro até ter que chegasse para oferecer um livro novo à mãe. Antes de mais, eu tinha de ir à Rascher saber o preço, e já era um prazer visitar aquela livraria no Cais do Limmat, sempre cheia de gente, estar com as pessoas que, muitas vezes, nos faziam perguntas acerca dos nossos futuros presentes, e naturalmente também abarcar com o olhar todos os livros que eu haveria de ler um dia. Não era tanto por me sentir mais crescido e mais responsável no meio desses adultos, mas pela promessa de leituras futuras, que nunca se esgotariam. Pois se havia coisa que, nesses dias, de facto me preocupava em relação ao futuro, era a disponibilidade de livros no mundo. O que aconteceria quando eu já os tivesse lido todos? É certo que eu preferia ler aquilo de que gostava uma e outra vez, mas essa alegria pressupunha a certeza de que mais e mais livros se seguiriam.
Depois de saber o preço do planeado presente, começavam as contas: Quantas merendas das dez teria eu de poupar para conseguir juntar o suficiente? Eram sempre alguns meses: moeda a moeda, lá se materializava o livro. Face a este objectivo, nem sequer se punha a tentação de, pelo menos uma vez, como faziam alguns dos meus colegas, comprar de facto um bolo e comê-lo à frente dos outros. Pelo contrário, sempre que um deles estava a comer o seu bolo, gostava de ficar ao seu lado e imaginar, com uma espécie de comprazimento – não sei exprimi-lo de outra maneira –, a surpresa da minha mãe quando lhe passássemos o livro para a mão."
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After - A mente e o cérebro
"In addition, recent neuroimaging studies of people under the influence of psychedelic drugs have shown that the elaborate mystical experiences associated with these drugs are accompanied by 'decreased' brain activity. This is the exact opposite of what we had expected. Traditional neuroscientific explanations of psychedelic drug trips assumed that psychedelic drugs like LSD and psilocybin increase brain activity, triggering hallucinations. But it appears that they instead decrease brain activity, particularly in the prefrontal cortex, and also sharply decrease the kind of synchronised electrical activity in the brain that is typically seen with complex thinking. This decrease in brain activity might reduce the brain's ability to filter the mind and permit access to mystical experiences. This is consistent with spiritual traditions from around the world that use choking, breath-holding, starvation, and extended sensory deprivation to induce mystical experiences."
After, Dr. Bruce Greyson [pag 191]
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Caminhos
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Deve ser por isto que começo a amar os Russos
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Drug stats
"In 2009 David Nutt was the chair of the UK's government's Advisory Council on t Misuse of Drugs. He shared the view I have described here: that drugs should be legally classified based on how harmful each drug is to individuals and to others. So, for example, if heroin is the most dangerous drug it should be the most restricted drug with the harshest punishment attached to its possession or distribution; if alcohol is the least dangerous drug, that would justify legal access compared to other recreational drugs. This method of classification seems so rational that many people in the UK probably assume it happens de facto, and by extension assume that alcohol is the safest drug because it is one of the easiest to acquire.
This metric of risk has been quantified by Nutt and his team in multiple papers. In one study, to come up with an unbiased way to determine the 'danger' of a drug, they calculated a score for each drug based on various types of harms: mortality rate, damage to physical health (e.g. cirrhosis; viruses), the degree to which it impaired mental functioning, likelihood of injury, committing a crime, family adversities, economic cost to society and so on (there were sixteen types of harms in total, nine describing harms to oneself and seven describing harms to others in society). Once these dangers were combined mathematically, each drug was given a relative score to every other drug, such that a drug scoring 50 was half as harmful as one that scored 100. Because not all types of harms are equally bad this was also reflected in the drug's score: drug-related mortality – the extent to which your life is shortened by that particular drug – was mathematically weighted as the most important harm of all.
The drug with the highest score on this danger scale overall (across both self and other danger categories) is alcohol. Alcohol scored over 70 on the scale of relative harm. This is because although the top three most dangerous drugs for harm to oneself are heroin, crack cocaine and methamphetamine, alcohol is the drug associated with the highest danger of harm to others (and is also associated with a relative high danger of harm to oneself). Tobacco placed sixth – less harmful than alcohol, heroin and cocaine.
In comparison, other recreational drugs such as magic mushrooms were associated with almost no harm at all. In fact, ecstasy, LSD and magic mushrooms were all at the bottom of the chart with scores of almost zero (in the case of magic mushrooms, actually zero) for danger to others; both scored below 10 for harm to oneself. Cannabis, although more harmful than mushrooms, was still less harmful than alcohol and a little bit less harmful than tobacco.
This scale was first developed and used to rate alcohol along with other drugs in a paper from 2007. Two years later Nutt wrote an editorial in the 'Journal of Psychopharmacology' arguing that the risks involved in horse riding – which is associated with one serious adverse event per approximately 350 'exposures' – exceeded those associated with the drug ecstasy, which is associated with one serious adverse event per approximately 10,000 exposures. (The article was entitled 'Equasy – An overlooked addiction with implications for the current debate on drug harms'.) Later that year Nutt made a statement that alcohol was more dangerous than many illegal drugs, leading to his subsequent dismissal from the position on the government's Advisory Council. But although his statement – and the 'Equasy' article – was undoubtedly provocative, it was also doing exactly what it should do: using scientific evidence to advise policy about the relative risk of recreational drugs."
Camilla Nord, in The Balanced Brain [pg 134-136]
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de Godots
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A insustentável leveza do ser
"[...] o fim que se persegue está sempre oculto. Uma rapariga que quer um marido, quer uma coisa que desconhece completamente. O rapaz que anda em busca da glória não faz a mínima ideia do que a glória é. O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida."
Milan Kundera in, A Insustentável Leveza do Ser [pag 141]
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Quando a infantilidade nos tira do sério...
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Bullying
A respeito de bullying e das suas etapas, desde a humilhação inicial do considerado mais fraco/diferente, passando pela cobardia de quem assiste ao espectáculo sem nada fazer, até ao 'virar o bico ao prego' acusando a real vítima.
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miséria...
"Na altura pareceu-me intensamente interessante que,no caso de um certo tipo de seres humanos,que quanto mais cruéis são os sofrimentos que lhes são infligidos mais cruéis eles se tornam para com os que têm a infelicidade de serem mais fracos ou mais miseráveis do que eles. Ou talvez devesse dizer que quase todos os seres humanos,colocados em situações suficientemente miseráveis,irão reagir de vez em quando a essas mesmas situações( causa da mutilação da sua personalidade )através da deliberada mutilação de outra personalidade mais fraca ou já mais mutilada. Diria mesmo que isto é absolutamente óbvio. Não estou a dizer que seja alguma descoberta. Pelo contrário,limito-me a afirmar aquilo que me interessou particularmente durante a minha estadia em La Ferté : estou a dizer que me tocou extremamente ver que,por mais ocupados que mantenham sessenta homens a sofrer em comum,há sempre um ou dois ou três que conseguem sempre arranjar tempo para fazer alguns dos seus camaradas gozar um pequeno sofrimento extra."
E. E. Cummings, O Quarto Enorme [pag 266]
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Caminhar, uma repetição
"Caminhar faz aflorar aos lábios de forma natural uma poesia repetitiva, palavras simples como o ruído de passos num trilho. Podemos encontrar um outro eco da caminhada na prática do canto de salmos nos chamados "coros alternados", em que um coro canta (numa só nota) um verso e o outro responde-lhe. Esta prática coral permite a alternância do canto e da escuta. Acima de tudo, ela gera um efeito de repetição que Santo Ambrósio compara com o rumor do mar: quando as vagas se quebram suavemente junto à costa, a regularidade do som não só não rompe o silêncio, mas ritma-o e torna-o mais audível. É assim com a salmodia, que no vaivém das respostas alternadas produz na alma, diz Ambrósio, uma quietude feliz. Estes cânticos em eco, o fluxo e refluxo das vagas, assemelham-se ao movimento alternado das pernas na caminhada. Nesse caso, não se trata de quebrar, mas de ritmar e tornar sensível a presençado mundo. Tal como Claudel escreveu que o som torna o silêncio acessível e útil, importaria dizer que a caminhada torna a presença acessível e útil.
Há na caminhada um poder imenso da repetição do Mesmo."Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros
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Caminhar
"Platão propõe a metáfora da lamparina. Para atendê-la, é preciso fornecer-lhe uma chama do exterior. A centelha são os livros. O que se obtém do seu contacto frequente não é a possibilidade de enceleirar aquisições, como um tesouro de verdades que aumentaria a cada leitura (a cada "aquisição" de conhecimentos), mas a possibilidade de se obter combustível. Chega o momento, diz Platão, em que o pensamento se alimenta da alma, qual chama de óleo na lamparina. Tem o bastante para durar, para que a chama brilhe sem que seja preciso reacender incessantemente a mecha. O pensamento acaba por se alimentar da alma. Por conseguinte, podemos subtrair os livros sem que a filosofia se extinga.
O caminhante nunca tem a paisagem diante de si. Não é o viajante apressado que salta da viatura, olha, assinala, avalia, tira a sua fotografia e volta a partir com a "captura" — esteve ali, viu, tem a prova. Um vestígio já morto, contabilizável em pixeis.
Pelo contrário, o caminhante envolve a paisagem e é por ela envolvido. Mescla os vincos. De resto, quase não a vê. Respira-a, inspira-a e expira-a por todos os poros, a cada passo que dá. A presença das colinas sedimenta-se suavemente nele como uma erosão invertida: ele retém-nas no seu corpo. A caminhada reqflecte o corpo na paisagem (e inversamente), como a filosofia reflecte a alma no pensamento. O caminhante e o filósofo debatem-se com o mesmo enugma: o da presença. A resolução passa por nela permanecer longamente, penetrá-la de forma interminável, habitá-la. O filósofo tem com os seu conceitos a mesma relação que o caminhante tem com a paisagem. Não há outra recompensa a esperar que não a familiaridade."
Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros
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