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Protect me from what I want / dos homens que odiavam as mulheres

"Porque é que ele me humilhava desta maneira? Creio que não foi, como acontece muitas vezes, porque as qualidades que o inicialmente encantaram – a minha vivacidade, a minha liberdade, o meu sentido de igualdade com os homens – acabassem por o irritar.
[...]
Ele tinha medo de mim: é a razão por que era cruel comigo. Tinha medo de mim de uma maneira vulgar e de outra invulgar. No primeiro caso tinha medo de mim da maneira que os homens costumam recear as mulheres: porque as amantes (ou esposas) os compreendem. Alguns homens são muito pouco adultos: querem que as mulheres os compreendam, e para atingir esse fim contam-lhes todos os seus segredos; e depois quando elas os compreendem totalmente, eles odeiam-nas porque elas os compreendem.
No segundo caso – o mais importante –, ele tinha medo de mim porque tinha medo de si próprio. Tinha medo de me amar completamente. Não era o simples terror de eu lhe invadir o escritório e a solidão; era o terror de eu lhe invadir o coração. Era cruel porque me queria afastar, porque receava amar-me completamente. Vou contar-lhe o que, no meu íntimo, acredito: que para Gustave, de um modo que ele não apreendia totalmente, eu representava a vida, e que me rejeitava ainda mais violentamente porque isso lhe criava a mais profunda vergonha. E eu tenho alguma culpa? Eu amava-o; há alguma coisa mais natural do que eu querer dar-lhe a oportunidade de ele me amar a mim?
[...]
É verdade que era um homem difícil de amar. O seu coração estava distante, afastado; tinha vergonha dele e muito cuidado com ele. O verdadeiro amor sobrevive à ausência, à morte e à infidelidade, disse-me ele uma vez; os verdadeiros amantes podem passar dez anos sem se verem. (Não fiquei impressionada por estas observações; limitei-me a concluir que ele se sentiria mais à vontade se eu estivesse ausente, se fosse infiel ou se morresse.)

Gabava-se de estar apaixonado por mim; mas nunca vi um amor tão impaciente. "A minha vida é como andar a cavalo", escreveu-me ele uma vez. "Dantes gostava de ir a galope; agora gosto de ir a passo". Quando escreveu isto ainda não tinha trinta anos; já tinha decidido ser velho antes do tempo. Enquanto eu... o galope! O cabelo ao vento, a gargalhada que vem de dentro, do fundo dos pulmões!

A sua vaidade lisonjeava-se com a ideia de estar apaixonado por mim; creio que também lhe dava um prazer não assumido o desejar constantemente o meu corpo e, no entanto, proibir-se de o ter: negar-se o prazer era tão excitante como ceder. Costumava dizer-me que eu era menos mulher do que a maioria das mulheres; que era uma mulher na carne, mas um homem no espírito; que eu era um hermaphrodite nouveau, um terceiro sexo. Afirmou-me muitas vezes esta teoria louca, mas na realidade estava só a afirmá-la a si próprio: quanto menos mulher ele me fazia, menos amante ele precisava de ser."

Julian Barnes, O Papagaio de Flaubert [pg 172, 173, 174]

Cupid and Psyche

"Ele tinha medo de mim: é essa a razão por que era cruel comigo. Tinha medo de mim de uma maneira vulgar e de outra invulgar. No primeiro caso tinha medo da maneira que os homens costumam recear as mulheres: porque as amantes (ou esposas) os compreendem.. Alguns homens são muito pouco adultos: querem que as mulheres os compreendam, e para atingir esse fim contam-lhe todos os seus segredos; e depois quando elas os compreendem totalmente, eles odeiam-nas porque elas os compreendem.
No segundo caso – o mais importante –, ele tinha medo de mim porque tinha medo de si próprio. Tinha medo de me amar completamente. Não era o simples terror de eu lhe invadir o escritório e a solidão; era o terror de eu lhe invadir o coração. Ele era cruel porque me queria afastar, porque receava amar-me completamente."

Julian Barnes, O Papagaio de Flaubert [pg 172]