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Nada fazer

Pintura de Georges de La Tour
"Comecemos pelos habitantes humanos, destas regiões longínquas, Blake chamava-lhes Querubins. E, com efeito, eis o que, sem dúvida, eles são — os originais psicológicos daqueles seres que, na teologia de todas as religiões, servem de intermediários entre o homem e a Luz Pura. As personagens mais que humanas da experiência visionária nunca "fazem nada". (Da mesma forma, no Céu, os bem-aventurados nunca "fazem nada".) Contentam-se simplesmente em existir.
Sob muitos nomes diferentes, e ataviadas com uma variedade infindável de trajes, estas figuras heróicas da experiência visionária do homem surgiram na arte religiosa de todas as culturas. Por vezes são representadas em repouso, por vezes a agir em contextos históricos ou mitológicos. A acção, porém, tal como já vimos, não é coisa natural por parte dos habitantes dos antípodas da mente. Atarefarmo-nos é a lei da nossa existência. A lei da existência deles é nada fazerem. Quando obrigamos estes estranhos impertubáveis a desempenharem um papel num dos nossos dramas excessivamente humanos, estamos a falsear a verdade visionária. É por isso que as representações mais arrebatadoras (embora não necessariamente as mais belas) dos "Querubins" são as que os retratam tal como se comportam no seu habitat natural — a não fazerem nada de especial.

E isso explica a impressão avassaladora e mais que meramente estética causada no observador pelas grandes obras-primas estáticas da arte religiosa. As figuras esculpidas dos deuses e reis-deuses egípcios, as Madonnas e as representações do Pantocrátor dos mosaicos bizantinos, os bodhisattvas e arhats da China, os Budas sentados do Camboja, as estelas e estátuas de Cópan, os ídolos de madeira da África tropical — todos partilham uma característica: a mais profunda imobilidade. E é precisamente isto que lhes dá o seu carácter exaltante, o seu poder de arrebatar quem os contempla do velho Mundo da experiência quotidiana e de os levar para muito longe, ao encontro dos antípodas visionários da psique humana."
Aldous Huxley, Portas da Percepção









Ny, Ny


"And then there is what may be called the Distorted Documentary a new form of visionary art, admirably exemplified by Mr. Francis Thompson’s film, NY, NY. In this very strange and beautiful picture we see the city of New York as it appears when photographed through multiplying prisms, or reflected in the backs of spoons, polished hub caps, spherical and parabolic mirrors. We still recognize houses, people, shop fronts, taxicabs, but recognize them as elements in one of those living geometries which are so characteristic of the visionary experience. The invention of this new cinematographic art seems to presage (thank heaven!) the supersession and early demise of non-representational painting. It used to be said by the non-representationalists that colored photography had reduced the old-fashioned portrait and the old-fashioned landscape to the rank of otiose absurdities. This, of course, is completely untrue. Colored photography merely records and preserves, in an easily reproducible form, the raw materials with which portraitists and landscape painters work. Used as Mr. Thompson has used it, colored cinematography does much more than merely record and preserve the raw materials of non-representational art; it actually turns out the finished product. Looking at NY, NY, I was amazed to see that virtually every pictorial device invented by the old masters of non-representational art and reproduced ad nauseam by the academicians and mannerists of the school, for the last forty years or more, makes its appearance, alive, glowing, intensely significant, in the sequences of Mr. Thompson’s film."
Aldous Huxley, Heaven and Hell

Experiências do 'Outro Mundo'

 
Paolo Uccello, Rosácea da Ressurreição
"Para os homens da Idade Média, é evidente, a experiência visionária era a mais valiosa de todas. Tão valiosa, aliás, que estavam dispostos a pagar por ela com o dinheiro que tanto lhes custava a ganhar. No século XII, havia nas igrejas caixas de esmolas para conservação e instalação de vitrais. Suger, abade de St. Denis, conta-nos que estavam sempre cheias."
Aldous Huxley, As Portas da Percepção

Estados alterados

"A Quaresma, tal como já vimos, seguia-se a um longo período de jejum involuntário. De forma análoga, os efeitos da autoflagelação eram outrora reforçados pela absorção involuntária de grandes quantidades de proteínas decompostas. A medicina dentária não existia, os cirurgiões assemelhavam-se a carrascos e não havia anti-sépticos seguros. A maioria das pessoas, portanto, deveria suportar, ao longo de toda a sua existência, infecções localizadas; e as infecções localizadas, embora fora de moda enquanto causa de todos os males que afectam a carne, conseguem seguramente diminuir a eficiência da válvula redutora cerebral.

E a moral de tudo isto... qual é? Os arautos de uma filosofia do Apenas-e-Só responderão que, uma vez que as mudanças na química corporal podem criar as condições favoráveis às experiências visionárias e místicas, as experiências visionárias e místicas não podem ser o que afirmam ser — o que, para aqueles que as viveram, elas manifestamente são. Mas isto, obviamente, é um non sequitur.

À mesma conclusão chegarão aqueles cuja filosofia é excessivamente "espiritual". Deus, insistem, é um espírito e deve ser venerado em espírito. Como tal, uma experiência quimicamente condicionada não pode ser uma experiência do divino. Mas, de uma form ou de outra, todas as nossas experiências são quimicamente condicionadas, e se imaginamos que algumas delas são puramente "espirituais", puramente "intelectuais", puramente "estéticas", é somente porque nunca nos demos ao trabalho de investigar o nosso ambiente químico interno no momento da respectiva ocorrência. Além disso os registos históricos dizem-nos que a maior parte dos contemplativos se esforçava de modo sistemático para modificar a sua própria química corporal, com vista a criar as condições internas favoráveis à introvisão espiritual. Qando não estavam a jejuar deliberadamente reduzindo a sua própria taxa de açúcares no sangue e promovendo as avitaminoses, ou a flagelar-se até se inebriarem com histamina, adrenalina e proteínas decompostas, estavam a cultivar a insónia e a orar durante longos períodos em posturas desconfortáveis, de maneira a criarem os sintomas psicofíscos do stress. Nos intervalos cantavam salmos intermináveis, o que lhes aumentava a quantidade de dióxido de carbono nos pulmões e na corrente sanguínea, ou, caso fossem orientais, executavam exercícios respiratórios para alcançar o mesmo fito. Hoje, sabemos como diminuir a eficiência da válvula redutora cerebral por meio de acção química directa, sem o risco de infligir lesões físicas graves ao organismo psicofísico."
Aldous Huxley, As Portas da Percepção

do êxtase

Aparição de São Miguel Arcanjo a Santa Joana d'Arc

"O sistema nervoso é mais vulnerável do que os outros tecidos do corpo; consequentemente, as deficiências vitamínicas têm tendência a afectar o estado de espírito antes de afectarem, pelo menos de modo particularmente óbvio, a pele, os ossos, as mucosas, os músculos e as vísceras. O primeiro resultado de uma dieta desadequada é a redução da eficiência do cérebro enquanto instrumento para a sobrevivência biológica. A pessoa mal nutrida tem tendência a sofrer de ansiedade, depressão, hipocondria e sentimentos de inquietação. Também está sujeita a ter visões; pois quando a eficiência da válvula redutora cerebral se atenua, muitos materiais inúteis (do ponto de vista biológico) afluem à consciência vindos 'lá de fora', da Mente sem Limites. [...] No que toca a vitaminas, todos os invernos medievais eram um longo jejum involuntário, e a este jejum involuntário seguiam-se, durante a Quaresma, quarenta dias de abstinência voluntária. A Semana Santa encontrava os fiéis magnificamente preparados, no que à química corporal dizia respeito, para os seus tremendos incentivos à dor e ao júbilo, para o remorso sazonal da consciência e para uma identificação, capaz de transcender o eu, com o Cristo ressuscitado. Nesta temporada de fervor religioso elevado ao máximo e de consumo mínimo de vitaminas, os êxtases e as visões eram quase banais. Outra coisa não seria de esperar naquelas circunstâncias."
Aldous Huxley, As Portas da Percepção

Dying to Know: Ram Dass & Timothy Leary / A legacy film / Exploring the edges of consciousness


Sobre o filme.

"Follow your interests. There's a good chance that other people are going to be deeply interested too. And you can't force things, and sometimes you've got to set them down and pick them back up." Afirma Gay Dillingham ao explicar que esteve várias vezes para desistir de realizar este documentário.



"Turn on, tune in and drop out. Now this may sound reckless advice today but it's the oldest advice that philosophers and religious leaders have passed on. Detatch (drop out), find what's within. And I stand by that statement."
Timothy Leary, at US Senate Hearing 1966


da religião e das drogas


"É claro, portanto, que o cristianismo e o álcool não se misturam, nem se podem misturar. O cristianismo e a mescalina parecem bem mais compatíveis. Isto mesmo foi demonstrado por muitas tribos de índios, desde o Texas até zonas tão setentrionais como o Wisconsin. Entre estas tribos encontram-se grupos com ligações à Igreja Nativa Americana, uma seita cujo rito principal é uma espécie de ágape cristão primitivo, ou festa do amor, durante o qual fatias de peiote tomam o lugar do pão e do vinho sacramentais. Estes nativos americanos encaram o cacto como uma dádiva especial de Deus aos índios, e identificam os seus efeitos com os do Espírito divino."
Aldous Huxley, As Portas da Percepção

do admirável mundo novo

"O capitalismo moderno precisa de uma grande quantidade de homens que colaborem sem levantar problemas, que queiram consumir cada vez mais, e cujos gostos estejam nivelados e sejam altamente influenciáveis e previsíveis. Precisa de homens que se sintam livres e independentes, que não se sintam sujeitos a qualquer autoridade, princípio ou consciência — e que contudo queiram ser chefiados, cumprir exigências e ocupar o seu lugar na maquinaria social sem atritos; que possam ser comandados sem recorrer à violência, chefiados sem chefes e motivados sem objectivos, com o objectivo único de ter um bom desempenho, de estar em constante movimento, de funcionar e de progredir.
   Qual é o resultado? O Homem moderno está alienado de si mesmo, dos seus semelhantes e da natureza. Ele transformou-se numa matéria-prima e vive como se a sua vida fosse um investimento para lhe dar o maior lucro possível sob as condições de mercado presentes. As relações humanas são essencialmente relações entre autómatos alienados, e a segurança de cada um depende de estar inserido na manada e de não ter pensamentos, sentimentos nem acções diferentes. Embora todos tentem aproximar-se o mais possível, todos estão sós, dominados pela profunda sensação de insegurança, ansiedade e culpa que resulta da impossibilidade de se ultrapassar a separação entre os homens. A nossa civilização oferece muitos paliativos que ajudam as pessoas a ficarem conscientemente inconscientes desta solidão: primeiro, temos a rotina rigidamente burocratizada e o trabalho mecanizado, que ajudam as pessoas a ignorar os seus desejos humanos mais fundamentais, como o desejo da transcendência e da unidade. Se a rotina por si só não o conseguir, o Homem pode ultrapassar o seu desespero inconsciente através da rotina do divertimento, do consumo passivo de sons e imagens oferecidos pela indústria do lazer, ou através da satisfação de comprar constantemente coisas novas e de as trocar rapidamente por outras."
Erich Fromm, in A Arte de Amar

da pele e da voz


"In this sense the very sick or the dying person is much like a child: he cannot tell us how he feels, but he is absorbing our feeling, our voice, and, most of all, our touch. In the infant the greatest channel of communication is the skin. Similarly, for the individual plunged in the immense solitude of sickness and death, the touch of a hand can dispel that solitude, even warmly illuminate that unknown universe. To the "nobly born" as to the "nobly dying", skin and voice communication may make an immeasurable difference."
Laura Huxley, in This Timeless Moment

do pensar

"We think we know who we are and what we ought to do about it, and yet our thought is conditioned and determined by the nature of our immediate experience as psycho-physical organisms on this particular planet. Thought, in other words, is life's fool. Thought is the slave of life, and life obviously is time's fool inasmuch as it is changing from instant to instant, changing the outside and the inner world so that we never remain the same two instants together."
Aldous Huxley, by Laura Huxley, in This Timeless Moment

"Sufficient unto the day is the evil thereof" *

"There are two diametrically opposite views about dying. One is that the best way is to go without knowing it, to slip away — hopefully when sleeping. The other view — less prevalent but more spiritually enlightened — is that one should die as aware and clear-minded as possible; that death is one of the great adventures of life, and one should not miss it or block it by unconsciousness. In this view, it is thought that the future life of the "soul" or "consciousness" or "mind" (whatever word one uses for that which pervades the body and gives it life) is influenced to a great extent by thoughts and feelings at the moment of death.
Aldous believed in the latter."
Laura Huxley, in This Timeless Moment

*"Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal." (Mt 6.34)

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Aldous Huxley

of giftedness

Aldous e Laura Huxley

  "Aldous, something is wrong, I don't know what, certainly not you. It must be that I am not the type to be married." I took a deep breath. "I believe we should divorce." What pain in pronouncing that word!
   Aldous looked at me with such deep love, with such dissolving tenderness. He took my hand and kissed it. "I caught a nymph," he said. "I must let her go," and released my hand.
   My breath stopped; I burst into tears and fell into his arms.
   "But I don't want to go! I don't want to leave you — it is just this peculiar married life...." I was trying to understand myself — crying — wondering.
   Aldous consoled me, teased and caressed me, and said that I was only half a creature of this world — the other half belonged to some other world; that it was difficult to be both human and a nymph. Maybe I should go away alone for a few days....
Laura Huxley, in This Timeless Moment

Também vou querer

"A segunda pessoa a sugerir que psicadélicos podiam ser úteis para indivíduos moribundos não foi um médico, mas um filósofo e escritor Aldous Huxley. Estava profundamente interessado tanto em experiências místicas induzidas por psicadélicos como em problemas relacionados com a morte e o morrer. Em 1955, quando a sua primeira mulher, Maria, estava a morrer de cancro, utilizou uma técnica hipnótica para a pôr em contacto com as memórias de várias experiências extáticas espontâneas que tivera durante a vida. O objectivo explícito desta experiência era facilitar a sua transição através da indução de um estado de consciência. Esta experiência inspirou a descrição que Huxley faz de uma situação similar no seu romance, A Ilha, onde o medicamento moksha, 100 microgramas de LSDuma preparação feita com cogumelos psicadélicos, é utilizado para ajudar Lakshimi, uma das personagens centrais, a enfrentar a morte. [...] Em 1963, quando o próprio Huxley estava a morrer de cancro, demonstrou a seriedade da sua proposta. Várias horas antes da sua morte, pediu à sua segunda mulher Laura que lhe desse de modo a facilitar o seu processo de morrer. Esta experiência comovente foi mais tarde descrita no livro de Laura Huxley, Este Momento Intemporal (1968). A sugestão de Aldous Huxley, embora poderosamente ilustrada pelo seu exemplo pessoal, não teve durante vários anos qualquer influência nos investigadores médicos. A contribuição seguinte para esta área adveio de uma fonte inesperada e não estava relacionada com o pensamento e a escrita de Huxley."A Psicologia do Futuro, Stanislav Grof


"Long before "turn on, tune in, drop out" became the credo of the American counterculture, Aldous Huxley was using mescaline and LSD in controlled, carefully documented experiments. Accounts of those psychedelic experiences, along with his interest in Eastern mystical religions, accompany the moving story of Aldous Huxley's later years with his wife, Laura. Huxley's fascination with the spiritual world remained with him throughout his life and never wavered through his final illness in 1963. THIS TIMELESS MOMENT takes the reader into the lively mind of one of the most profound thinkers of any generation."