"Uma coisa nova de que me apercebi foi que comecei a sentir que o desejo de nos sentarmos juntos, calmamente e em silêncio, provinha tanto dele como de mim. Tínhamos tido prenúncios disto durante os nossos banhos a dois, mas com a nudez como ingrediente e a água a impor, ao arrefecer, um término natural a esses momentos, a situação fora diferente. Agora, estendíamo-nos simplesmente ao final da tarde ou início da noite, completamente vestidos, com uma disposição não necessariamente — aliás, muitas vezes não o era de todo — pré-coital, e nem sequer líamos ou lembrávamos um ao outro coisas que tínhamos para fazer. Ele desistiu de ter sempre um caderno e um lápis à mão. Este nosso repouso partilhado não era instrumental. Pressenti e ele confirmou que preferia que eu não lesse nada de demasiado absorvente enquanto estávamos deitados, porque me afastava dele. Podia ler poesia, porque havia espaços entre os poemas em que eu voltava a estar presente. Eu não conseguia acreditar verdadeiramente nisso. Era demasiado lisonjeiro.
Por volta dessa altura, a questão da verdadeira intimidade — como defini-la, será que a tínhamos, será que não — desapareceu, graças a Deus. Às vezes, quando estávamos a descansar, o Nelson virava-se e confrontava-me com um sorriso tresloucado que o fazia parecer o logotipo de uma casa de jogos. Isso era para me dar a oportunidade de o sossegar em relação aos dentes e ao sorriso. Isto é intimidade, disse eu. Ele sabia que um dos motivos pelos quais sorria menos do que as outras pessoas era por ter a sensação de que os seus dentes, ligeiramente encavalitados de lado, eram feios e, quando sorria, sentia a cara inchada, esquisita. Isto é intimidade, disse eu, e evocar fantasias sexuais datadas sobre ir para a cama com gémeas idênticas é falsa intimidade, embora seja essa a noção de intimidade que têm noventa por cento dos homens."
Norman Rush, Acasalamento
Isto é Intimidade, Disse Eu
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Podíamos ficar cá...
"O que é que te aborreceu?, perguntou o Nelson, quando voltei para a vidraria. Nada, talvez tenha sido a minha mãe, respondi, fugindo à pergunta, quando o que me apetecia verdadeiramente era gritar com ele por causa do gigantesco quid pro quo com que me brindava, qualquer coisa do género: Podemos ficar juntos para sempre, mas só numa cabeça de alfinete, em Tsau. Estava cansada de as boas notícias andarem sempre de braço dado com as más: ganha-se uma lua de mel mas é em Beirute, ganha-se um chalet para a reforma mas fica no cimo de Kanchenjunga. Apetecia-me andar de um lado para o outro e dar pontapés nos sacos dele de areia rara."
Norman Rush, Acasalamento
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Living by numbers
"Também achei que ele andava com tendência para ser mais verdadeiro, ou
melhor, mais verdadeiro mais depressa. Havia uma contradição: quando lhe
perguntei, em tom ligeiro e en passant, que idade tinha, ele hesitou
palpavelmente antes de responder. Estávamos a trabalhar na plantação de
borracheiras. Fiquei atordoada durante um segundo por ele aparentemente
se estar a revelar uma pessoa que acha que a idade é importante. Nenhum
homem verdadeiramente adulto o acha. Depois, disse a única coisa que o
poderia ter salvado: que não sabia que idade tinha."
Norman Rush, Acasalamento
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o sendeiro leguminoso
"Mas houve mais de um punhado de vezes em que acordei e deparei com a cama vazia.
Fiz as habituais deduções sobre para onde ele podia ter ido, pelo menos
em relação às ausências mais curtas. Havia também a questão delicada de
estarmos ambos a trilhar o 'sendeiro leguminoso', em termos de regime
alimentar, para usar a expressão dele, de maneira que tínhamos de lidar
com uma certa flatulência, pura e simples flatulência. Parecia ser
cíclica, mas existia indubitavelmente.
Nos primeiros dias de vida em comum, tínhamos individualmente arranjado
pretextos para ir lá fora um minuto, especialmente depois de nos termos
deitado, para evitar o antirromantismo da coisa toda. Mas isso tornou-se
demasiado pesado e acabámos por criar um modo de estar bastante
aceitável, pareceu-me. Quando era eu a autora do ruído, ele dizia, por
exemplo: 'Also sprach' Zarathrustra, ou Ah, um relatório do interior,
como se ele fosse um embaixador ou procônsul. À medida que nos fomos
sentindo mais à vontade um com o outro, inventámos outras expressões.
Esta questão tem, de facto, de ser trabalhada entre amantes. Conheço um
casamento em que a primeira brecha que levou ao colapso total surgiu
quando o marido declarou que a flatulência só era um problema quando era
ele a cozinhar."
Norman Rush, Acasalamento
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da arrogância
"Cinco mulheres alinharam-se entre as tochas. Quatro empunhavam lanternas acima da cabeça e a quinta carregava uma ferramenta impossível de identificar a princípio e que, afinal, era um malho enorme, quase uma caricatura da verdadeira ferramenta, de tão grande que era. Quando apareceu uma pessoa em palco e pousou um objeto que parecia uma otomana à frente deste coro, adivinhei o que aí vinha. O objeto era, na realidade, um segmento com um metro de altura de um tronco de árvore grosseiramente envolto e cosido num invólucro de pele de vaca. A mulher com o malho ia começar daí a nada a espancá-lo. As lanternas estavam acesas e apontadas à Dirang Motsidisi, ainda vestida como estava antes, mas com o véu da cabeça puxado para baixo. Era agora a protagonista. Entregaram-lhe o malho. Adivinhei bem o que aí vinha. Esperava-nos um capítulo de Fim das lamentações das mulheres, ponto final. Esperei e rezei para que fosse apenas um capítulo. Já tinha visto, de vez em quando, alguns capítulos representados, ensaiados. Era uma produção em curso que provavelmente nunca seria apresentada na totalidade, de tão épica que era.
Tive vontade de me enfiar num buraco e, ao mesmo tempo, senti-me desleal por causa do meu embaraço, achando que estava imaturamente a identificar-me com o Ocidente branco e a virar as costas à pessoa com quem vivia, por tentativa dele para exorcizar e concretizar a voz dos ex-oprimidos ser demasiado arrogante para mim, pelo menos quando eu tinha de assistir à dita tentativa não en famille, mas na companhia de membros instruídos do Ocidente cuja cultura me impressionava. Todos gostamos de uma certa arrogância num parceiro, mas preferimos que seja em grau moderado. Eu sabia o que me estava a acontecer. Havia qualquer coisa no Harold e na Julia que estava a reavivar a minha susceptibilidade por causa da educação que tive. Pareço mais instruída do que sou. Conheço as minhas lacunas e até que ponto uma grande parte do que digo para fazer boa figura não passa de boa memória. O Harold e a Julia estavam a fazer-me regredir. Eram maravilhosamente cultos e eu não, ergo representavam o observador ideal, em conjunto. Era martirizante que o Nelson estivesse a teimar naquela segunda extravagância, cuja inocência e boas intenções não seriam acessíveis ao Harold e à Julia, porque, à superfície, podiam ser tão grosseiras e peculiares."
Norman Rush, Acasalamento
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Do patriarcado / da psicologia social / a propósito de Ressentiment, de Schoeck*
"Portanto, recomeçou ele, digamos que temos um conjunto médio de
africanos pobres, agricultores, e eis que aparecem uns especialistas
brancos para induzirem o desenvolvimento, por exemplo, instalando um
projecto de desenvolvimento rural integrado com o máximo de
sensibilidade de que alguém foi capaz até à data. O tempo passa. As
coisas começam a funcionar. Mas acontece uma coisa curiosa: os melhores
de entre os pobres, os mais competentes, os que estão a sair melhor e
inclusive os que são mais parecidos connosco espiritualmente, são
aqueles que nos vão brindar com grinaldas e ramalhetes de ressentimento.
Porquê? O que é que devemos fazer para o evitar?
E olhe que estou a falar de um projecto de desenvolvimento absolutamente normal.
Nenhum adulto quer ser ajudado, disse eu. Por definição. Provavelmente devia especificar "homem adulto", em vez de dizer só "adulto", porque o caso das mulheres é diferente. Mas basta pensar nos Franceses, nos Britânicos e em nós. Seria de pensar que, no mínimo, eles fingissem que gostavam de nós ao longo de uma parte de uma geração, uma vez que os salvámos de se transformarem em províncias do Terceiro Reich. Podemos ajudar as mulheres, mas cuidado com a ideia de ajudar os homens. As nações são masculinas."
Norman Rush, "Acasalamento" — um romance, escrito por um homem, em que a figura central, e narradora, é uma mulher.
* Ressentiment, vem da Sociologia francesa e significa ressentimento expresso em segredo, em especial contra quem nos faz bem.
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