Caminhar

"Platão propõe a metáfora da lamparina. Para atendê-la, é preciso fornecer-lhe uma chama do exterior. A centelha são os livros.  O que se obtém do seu contacto frequente não é a possibilidade de enceleirar aquisições, como um tesouro de verdades que aumentaria a cada leitura (a cada "aquisição" de conhecimentos), mas a possibilidade de se obter combustível. Chega o momento, diz Platão, em que o pensamento se alimenta da alma, qual chama de óleo na lamparina. Tem o bastante para durar, para que a chama brilhe sem que seja preciso reacender incessantemente a mecha. O pensamento acaba por se alimentar da alma. Por conseguinte, podemos subtrair os livros sem que a filosofia se extinga.

O caminhante nunca tem a paisagem diante de si. Não é o viajante apressado que salta da viatura, olha, assinala, avalia, tira a sua fotografia e volta a partir com a "captura" — esteve ali, viu, tem a prova. Um vestígio já morto, contabilizável em pixeis.

Pelo contrário, o caminhante envolve a paisagem e é por ela envolvido. Mescla os vincos. De resto, quase não a vê. Respira-a, inspira-a e expira-a por todos os poros, a cada passo que dá.  A presença das colinas sedimenta-se suavemente nele como uma erosão invertida: ele retém-nas no seu corpo. A caminhada reqflecte o corpo na paisagem (e inversamente), como a filosofia reflecte a alma no pensamento. O caminhante e o filósofo debatem-se com o mesmo enugma: o da presença. A resolução passa por nela permanecer longamente, penetrá-la de forma interminável, habitá-la. O filósofo tem com os seu conceitos a mesma relação que o caminhante tem com a paisagem. Não há outra recompensa a esperar que não a familiaridade."

Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros

How not to age