Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a
camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa
vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como...
como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência
da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?
Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.
Showing posts with label Herberto Helder. Show all posts
Showing posts with label Herberto Helder. Show all posts
Se eu quisesse, enlouquecia
Herberto Helder, in Os Passos em Volta, 1997
Posted by
F
0
comments
Labels: Herberto Helder, poesia, sublinhados
