A respeito de bullying e das suas etapas, desde a humilhação inicial do considerado mais fraco/diferente, passando pela cobardia de quem assiste ao espectáculo sem nada fazer, até ao 'virar o bico ao prego' acusando a real vítima.
Uma portentosa descrição de E E. Cummings:
"Os da promenade tinham-se mostrado particularmente barulhentos,pensei. Agora subiam para O Quarto Enorme fazendo um estardalhaço verdadeiramente tremendo. Mal as portas se abriram entraram por ali dentro meia dúzia de sujeitos frenéticos,que começaram imediatamente a falar-me numa qualquer coisa terrível que o meu amigo noir tinha acabado de fazer. Ao que parece o Marrano da Gabardina Cintada tinha puxado o lenço de Jean( a prenda de Lulu de outros tempos )que Jean trazia sempre conspicuamente no bolso do peito;que Jean agarrou a cabeça do Marrano entre as duas mãos,segurou-a firmemente,baixou a sua própria cabeça,e enfiou no impotente Marrano uma valente cabeçada que mais parecia de um touro — o impacto da cabeça de Jean no nariz do Marrano fez com que o bem conhecido apêndice fosse ocupar uma nova posição nas proximidades da orelha direita. B corroborou a descrição,acrescentando que o nariz do Marrano estava partido e que todos estavam a atirar-se a Jean por lutar de maneira tão pouco desportiva. Fui dar com Jean ainda zangadíssimo,e sobretudo muito magoado por todos agora o evitarem. Disse-lhe que pessoalmente tinha ficado contente com o que ele tinha feito;mas nada conseguia animá-lo. O Marrano estava agora a entrar,com um aspecto horroroso de se ver,tendo sido remendado por Monsieur Richard com copiosos emplastros. O nariz não estava partido,disse ele numa voz pastosa,mas simplesmente encurvado. Aludiu obscuramente aos sarilhos que esperavam le noir;e recebeu a comiseração de todos os presentes exceto Mexique,O Zulu,B e eu. O Zulu,estou-me a lembrar,apontou para o seu próprio nariz( que não era nada insignificante ),depois para Jean,e depois fez uma careta de excruciante angústia,com uma audível piscadela de olho.
Jean tinha-se ido abaixo. O quase unânime veredicto contra ele tinha convencido a sua alma extremamente sensível que tinha agido mal. Deixou-se ficar estendido imóvel,sem uma palavra para ninguém.
Pouco depois de la soupe,cerca das oito horas,O Marrano Brigão e o da Gabardina Cintada atiraram-se de repente a Jean Le Nègre sem nenhum motivo;e desataram a espancá-lo cruelmente. Abatido pelos remorsos aquele magnífico pilar de músculos — que podia ter matado facilmente os seus atacantes com um só golpe — não só não respondeu à violência como se recusou inclusivamente a defender-se. Sem oferecer resistência,com esgares de dor,os braços levantados mecanicamente e de cabeça baixa,foi empurrando entre murros assustadores até à janela ao lado da sua cama,e daí até ao canto( derrubando o banco do pissoir ),depois ao longo da parede até à porta. À medida que o castigo aumentava Jean gritava como uma criança : "Laissez-moi tranquille!" — incessantemente;e a voz dele foi ganhando rapidamente um tom de loucura. Por fim,num uivo de dor,precipitou-se para a janela mais próxima;e enquanto os Marranos unidos o esmurravam ele gritava por socorro para o planton postado em baixo. —
A consternação e os aplausos sem paralelo causados por esta batalha unilateral tinham há algum tempo alarmado as autoridades. Estava eu ainda a tentar abrir caminho por entre as filas com uma largura de cinco pessoas que formavam um círculo de espectadores( entre elas O Estafeta,que me aconselhou a desistir e que recebeu em troca um outro bom conselho ) — quando a porta se escancarou com tremendo estrondo;e entraram quatro plantons de revólver em punho,com um medo de morte no rosto,seguidos pelo Surveillant que empunhava uma espécie de bastão e gritava debilmente : "Qu'est-ce que c'est!" Ao primeiro ruído da porta a abrir-se os dois Marranos tinham-se escapado,e armavam-se agora em espectadores inocentes. Só se via Jean em cena. Tinha a boca aberta. Os olhos enormes. Arquejava como se o coração estivesse prestes a rebentar. Mantinha ainda os braços levantados como se visse diante de si novos inimigos. Havia sangue a salpicar aqui e ali o maravilhoso tapete de chocolate da sua pele,e todo o corpo luzia de suor.
A camisa sobre a bela musculatura estava em farrapos.
Sete ou oito pessoas desataram à uma a explicar a rixa ao Surveillant,que não percebia nada do que lhe contavam e então chamou à parte um velhote de confiança para ouvir a versão dele. Saíram os dois do compartimento. Os plantons,vendo o esperado lobo transformado em cordeiro,brandiam os revólveres em torno de Jean e ameaçavam-no na desprezível e vil linguagem que os plantons usam com aqueles que podem brutalizar. Jean não parava de repetir debilmente "laissez-moi tranquille. Ils voulaient me tuer".
O peito estremecia terrivelmente com os soluços profundos.
O Surveillant voltou e fez um discurso,a dizer que tinha recebido independentemente uma das outras as versões de quatro homens,que delas se concluía que le nègre era absolutamente o culpado,que le nègre tinha causado um imperdoável transtorno às autoridades e que como castigo o nègre iria agora sofrer as consequências da sua culpa no cabinot."
E. E. Cummings, O Quarto Enorme