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Paraísos

"Sempre imaginei o paraíso como um lugar seco e quente, nunca húmido. No paraíso não há mentiras."

"Decidi esperar mais uma semana antes de começar a ter esperança."

"O paraíso? Acabei de experimentar isto tudo.
O paraíso deve ser quando todas as dores terminam. Mas isso significa então que, enquanto não temos dores, vivemos no paraíso! Sem nos darmos conta!
Os felizes e os infelizes vivem no mesmo mundo e não o sabem!"

Lars Gustafsson, A Morte de Um Apicultor

"A esperança é o vendedor de carros em segunda mão da existência humana"

Estamos no nosso melhor quando faz sentido continuar; quando não há uma esperança que nos faça continuar. [...] Para estarmos no nosso melhor temos de ser empurrados para um canto, onde não há esperança e nada a ganhar por continuarmos. E apesar disso continuamos.


Escolhas



Tertúlio, o mais perverso e depravado dos primeiros cristãos – e isso não é coisa pouca – tinha uma visão preferida do inferno, que era a de um lugar onde todos aqueles que não tinham sido salvos eram torturados por demónios, que espetavam forquilhas em brasa nos traseiros deles e coisas do género. Os salvos, por outro lado, estariam nos camarotes do céu, a assistir aos tormentos dos condenados, rindo-se alegremente. É difícil sentir outra coisa que não seja desprezo por Tertúlio, e pelas profundezas do ressentimento que deve ter alimentado para pensar no céu e no inferno nestes termos. Para Tertúlio, o céu era um lugar rancoroso, e isso não passava do reflexo da sua alma rancorosa. Já quanto ao inferno, acho que a visão de Tertúlio era bastante suave.


O inferno seria bem pior se não fosse um lugar onde somos torturados e maltratados, e fosse antes um lugar onde somos forçados a torturar e a maltratar aqueles de quem mais gostamos. Somos obrigados a fazê-lo, mesmo que achemos isso arrepiante e que a repugnância nos percorra até às profundezas da nossa alma. Somos forçados a fazê-lo, ainda que isso custe o que na vida mais prezamos acima de tudo: o amor deles. Mas fazemos o que temos a fazer porque – e aqui é que se vê a genialidade do inferno – é para o bem deles. O inferno dá-nos a escolher, mas nós optamos por fazê-lo porque a alternativa é pior. Isto é muito pior do que o inferno de Tertúlio. Se eu estivesse neste inferno, trocava de lugar com os condenados de Tertúlio enquanto o Diabo esfregava um olho.

Naquela época, quando Brenin estava a morrer, achava que o inferno devia ser isso – obrigar-me a torturar um lobo que eu amava, porque era para bem dele. Mas este seria um inferno estranho, da mesma forma que a visão de Tertúlio era a de um estranho céu. O céu de Tertúlio era habitado por pessoas que odiavam. O meu inferno estaria cheio de pessoas que amavam. Gostaria de pensar que aqueles que odeiam nunca poderão ir para o céu, e aqueles que amam nunca poderão ir para o inferno. Mas o consequentalista que há em mim não me deixa acreditar nisto.

O Filósofo e o Lobo, Mark Rowlands

E eu que gosto cada vez mais da Filosofia!

Aquilo que me distingue, acho eu, é o que me falta.

A opção pela minha carreira é quase de certeza uma manifestação dessa falta. Com a possível excepção dos mais altos níveis da matemática pura e da física teórica, é difícil imaginar algo de mais desumano do que a filosofia. A sua adoração pela lógica em toda a sua pureza cristalina e fria; a determinação em percorrer energicamente os inóspitos e gélidos cumes da montanha da teoria e da abstracção: ser um filósofo é ser existencialmente desenraizado. Quando penso num filósofo, penso em Bertrand Russel sentado o dia inteiro na Biblioteca Britânica, durante cinco anos seguidos, a escrever o Princípia Mathematica, uma tentativa inacreditavelmente difícil e engenhosa – provavelmente falhada – de deduzir a matemática da teoria dos conjuntos.

[...] Ou então penso em Nietzsche, um aleijado itinerante, vagueando de país em país, sem amigos, sem família, sem dinheiro; o seu trabalho, depois de um promissor princípio, colhendo apenas rejeição e escárnio. E imaginem o que lhes custou a eles. Intelectualmente, Russel nunca mais foi o mesmo. E Nietzsche deu em louco – embora, há que reconhecê-lo, a sífilis possa ter tido alguma coisa a ver com o caso. A filosofia é fulminante. Os filósofos deviam receber condolências e não parabéns.
O Filósofo e o Lobo, Mark Rowlands

Nós, os pais, por vezes somos apelidados de chantagistas... Mas a vida é MUITO mais dura e castigadora...

É uma dura verdade que, como disse Friedrich Nietzsche em tempos, aqueles que não se conseguem disciplinar a si próprios depressa encontrarão alguém que o fará por eles. E no caso de Brenin, era minha responsabilidade ser essa pessoa. Mas a relação entre disciplina e liberdade é profunda e importante: longe de ser contrária à liberdade, a disciplina é o que torna possível a maioria das formas de liberdade que valem a pena. Sem disciplina não existe verdadeira liberdade; apenas libertinagem.
O Filósofo e o Lobo, de Mark Rowlands