Sofia, uma enorme mulher por detrás de um grande homem
Os seus dias eram preenchidos por questões enfadonhas como essas que não lhe interessavam. "Estou cansada desta interminável batalha e de tantas horas de trabalho árduo que dedico à casa e à educação dos meus filhos, dos negócios, da editora, de gerir os bens dos meus filhos, de cuidar do meu marido e de zelar pela paz familiar." Sofia continuava a trabalhar, apesar da apatia, da insónia e dos distúrbios nervosos, comentando no seu diário que nada disso era visível para quem estava de fora. A sua alma tornara-se "frágil" e levava-a a perturbar-se facilmente. Para além disso, os dois filhos mais novos apresentavam comportamentos problemáticos. Sofia escreve a Tolstoi, queixando-se que o seu trabalho não lhe dava satisfação e que se sentia como um cavalo movido a chicote. No seu diário, confessa sentir-se atemorizada com ele própria, com o seu desespero e os seus pensamentos suicidas. A partir de então passa a discernir dois caminhos: um para a perfeição espiritual e outro para a fraqueza e a deterioração. "Sinto que enveredo por este último caminho e isso assusta-me e entristece-me." É com Tolstoi que desabafa o seu temor de declínio espiritual, juntamente com o seu desejo de não desistir – no fundo, rezava para que Deus lhe desse a força da sabedoria.
Sofia tocava piano para se descontrair: "Mesmo quando sou eu a tocar, tudo se torna subitamente claro, a música enche-me de alegria e permite-me vislumbrar as preocupações da vida sob uma nova luz, com calma e lucidez." Taneev fez-lhe uma visita inesperada e proporcionou-lhe uma agradável distracção: para além de lhe trazer uma nova peça que acabara de compor, tocou-lhe outra da sua nova sinfonia. "Sentámo-nos a conversar tranquilamente e lemos um artigo de crítica musical. ele é sempre uma companhia tão pacífica, sincera e interessante. Damo-nos tão bem – tenho tanta pena que o ciúme do L. N. pese tanto sobre esta amizade tão pura e simples. "Taneev vinha pedir-lhe a opinião sobre a sua nova obra, tal como Tolstoi fizera no passado.
Ainda nesse ano, Sofia organizou um serão musical com Taneev e Elizaveta Lavrovskaya, cantora e professora do Conservatório de Moscovo. Entretanto, Tolstoi recebeu muitos artistas, incluindo o pintor Repin, o compositor Rimsky-Korsakov e o jovem cantor de ópera Feodor Shalyapin, que começava na altura a conquistar os palcos. sofia descrevia-o como "um gigante louro, de bom fundo e espantosamente talentoso em todos os aspetos, no canto, no desenho e como contador de histórias".
A presença de Tolstoi em Moscovo atraía outros visitantes – muitos deles perfeitos desconhecidos. Para além de ser um grande escritor, era um sábio e um mestre na arte de viver e as pessoas queriam saber a sua opinião acerca de tudo. Sofia ouviu um visitante perguntar-lhe o que é que ele pensava sobre o segundo advento de Cristo. Camponeses, mestres-escola, correspondentes estrangeiros e operários fabris vinham consultar o escritor Lev Tolstoi. Dotado de uma "curiosidade sem limites", recebia-os a todos. "Enlouqueceria se tivesse de viver como o Lev Nikolaevich", reflecte Sofia. "Passa a manhã inteira a escrever, desgastando-se mentalmente, e passa o serão a falar sem parar, ou antes, a pregar, pois os seus seguidores tendem a procurá-lo para pedir conselhos ou orientações."
Todos os dias, Sofia recebia pessoas que não vinham visitá-la a ela, mas que pretendiam conhecer Tolstoi. Enquanto produzia a mais recente edição das obras completas, anota no seu diário: "Provas, solidão, tristeza." Tolstoi já estava "constantemente rodeado de pessoas" e a fama dele distanciava-os.
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do patriarcado
"Tal como havia de comentar, Sofia afastou as suas próprias aspirações por as considerar uma ameaça ao seu compromisso para com Tolstoi e o seu trabalho. Desde a infância que nutria um grande desejo de estudar arte e essa ânsia regressaria. Certa vez, na ausência de Tolstoi, quando ela lhe escrevia uma carta, a irmã dele, Maria Nikolaevna, começou a tocar uma peça de Schubert. Sofia descreve ao marido a sensação que a percorre:
Estou sentada no vosso escritório, a escrever e a chorar [...] Esta música que não ouvia há tanto tempo transportou-me para fora da minha esfera do quarto do bebé, das fraldas e das crianças [...] para um local distante e desconhecido [...] Há muito que reprimo estas cordas que a música e a natureza fazem estremecer e produzir tanta dor dentro de mim [...] Sinto-as agora. Magoa-me e é bom. Mas é melhor para nós, mães e mulheres da casa, mantermo-nos afastadas de tudo isso [...] Ouço a música, tenho os nervos em franja, amo-vos terrivelmente, contemplo o lindo pôr do Sol pela janela do vosso escritório
As melodias de Schubert que antes me deixavam indiferente transtornam-me agora a alma e não consigo conter as lágrimas [...] Em breve se acenderão as velas e eu serei chamada a amamentar [...] e este sentimento passará, como se nada fosse."
Alexandra Popoff, in Sofia Tolstoi – Uma biografia
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Sofia recorda Lev
Recordando o êxtase dos seus encontros, Sofia escreveria: "Mulher alguma poderia sentir um amor mais forte do que o amor que senti por Lev Nikolaevich [Tolstoi]. Não era bem-parecido, nem jovem e só tinha quatro dentes estragados na boca. Contudo, o júbilo que surgia em mim, quando estávamos juntos [...] esse júbilo iluminou-me a vida por muito, muito tempo."
Alexandra Popoff, in Sofia Tolstoi – Uma biografia
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