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Freud e Fausto

"Perguntava-me então se o Sigmund, sem o confessar nem a si mesmo, não acabava de introduzir na psicanálise uma nova dimensão que fazia parte do desconhecido, do inconhecível. Do limite no qual o humano se fere. Daquilo que o ultrapassa.
Ele estava em posição de dizer que se mantinha sempre dentro das fronteiras da ciência, mas eu não estava certa de ele não invocar, naquela nova elaboração da teoria, talvez até a contragosto, o tal além de que as religiões testemunham, cada qual à sua maneira. Sem dúvida era essa a razão pela qual os mais racionalistas dos seus alunos se tinham oposto com furor à nova concepção das coisas.
E talvez fosse por isso que o Sigmund se via obrigado, para se defender deles, a repetir os seus ataques à religião. Talvez acabasse de se ter ferido naquilo que sempre se negara a admitir, que a psicanálise, a sua criação, tinha limites.
Penso numa citação que, numa carta ao Stefan Zweig — de que eu soube recentemente —, fora buscar ao Fausto, de Goethe. Escrevera, a propósito da fuga do Joseph Breuer perante a gravidez nervosa de Bertha Pappenheim: Tinha na mão a chave que nos teria aberto as Portas das Mães, mas deixou-a cair. Apesar dos seus grandes dons, não havia nele nada de faustiano. Aquela referência não me era estranha. Goethe fora sempre um dos meus autores preferidos — eu lera e relera o seu Fausto. Mas não conseguia descobrir o local onde se falava naquelas enigmáticas "Portas das Mães" para compreender a que se referia ele. Tratava-se do Segundo Fausto em que Mefistófeles evoca as deusas capazes de fazer aparecer Helena e Páris, bem como o sítio onde elas residem. Tirei o livro da estante e reencontrei estes versos magníficos:
Majestosas, as deusas reinam na solidão; Em torno de si não há lugar, e ainda menos tempo; Falar delas é perturbante; São as Mães.
E a Fausto, que lhe pergunta qual o caminho para as encontrar, ele responde: Não há caminho! É no trilhado, no que nenhum pode calcar; um caminho para o indesejado, para o inacessível. Estás pronto? Nem fechaduras nem ferrolhos a abrir; vaguearás nas solidões. Tens ideia do vazio, da solidão?
Aquele texto sempre me impressionara pela sua beleza imponente e a língua admirável do poeta. Mas o mais emocionante era o que fazia ressoar de mistério, de desconhecido, o que evocava dum alhures inacessível onde se acharia, escondida, a explicação derradeira dos enigmas que o homem defronta. Aquele texto era místico, não restavam quaisquer dúvidas, e fiquei admirada por o meu marido, o notório ateu, o racionalista intratável, se referir a ele. Mas, talvez, disseram-me na época, não fosse senão uma das suas citações literárias em que era useiro e vezeiro.
Hoje não estou assim tão certa disso. Se o Breuer não era faustiano', o Sigmund, esse, não me restam dúvidas, teve sempre a ambição de o ser. Muito novo, via-se como um expugnador, um conquistador, como ele dizia, um homem que enfrentaria todos os perigos para descobrir terras ignotas. E não o foi? Não era o herói intrépido que vencera todas as provas para descobrir os segredos dissimulados no mais profundo do ser humano? Não era, tal como Édipo, aquele que havia resolvido o enigma da Esfinge? Não tivera de lutar com os seus próprios demónios, ultrapassar as suas angústias, bater-se com a adversidade, para aceder a um lugar de que nenhum outro ousara pisar o limiar? Não tinha lançado um desafio à ordem reinante, aos pais moralizadores, ao próprio Deus, e não se sentia, como todos os fundadores, investido duma missão que o colocava acima dos outros homens, que o levava a vaguear, como diz o poeta, nas solidões?
Mas, num certo momento da sua vida, chegara a um ponto onde o não trilhado, o indesejado, o inacessível, se revelaram mais inquietantes do que os arcanos do inconsciente. Não se tratava já, pura e simplesmente, dos mistérios, afinal bem anódinos, da sexualidade, mas daqueles que o homem enfrenta quando se trata da sua morte. E devo dizer que, pela primeira vez, me senti em profundo acordo com a sua pesquisa.
Nicolle Rosen, in Martha Freud