do hermético

O maior pecado que um especialista pode cometer quando fala com outro é explicitar o assunto, 'descer o nível', o que é insultuoso. Por isso, quando se trata de clarificar um assunto, os especialistas cometem sempre erros. Não se apercebem de que não partilham pressupostos comuns. E chegam-se a tremendos campos de conflito, consequência de mal-entendidos de base, bastante simples a um nível mais baixo.
Existe um diferença profunda entre a tradição universitária anglófona e a
europeia. Na Europa continental, os professores falam do alto das suas cátedras, nas suas torres de marfim, debitando a sua sapiência, e o aluno toma notas e não faz perguntas; se são difíceis de entender e inacessíveis, melhor para eles — compensa. É assim que se consegue uma reputação — sendo-se obscuro. O mesmo não se passa na tradição universitária de língua inglesa, pelo menos com tanta intensidade. Não sei qual é a relação com a ciência, mas vê-se que essa atitude também influencia a escrita não científica, semicientífica ou filosófica dos cientistas do continente europeu. Jacques Monod e François Jacob constituem dois exemplos. Aspiravam a ser filósofos da Europa continental, o que os levou a águas mais escuras e profundas do que aquelas em que eram capazes de nadar.

Daniel C. Dennett, in A Terceira Cultura

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