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E um dia, em que o hospital estava praticamente deserto — entre o Natal e o Ano Novo, a semana mais sossegada do ano — vi uma jovem na cafetaria, a ler Baudelaire. É raríssimo ver-se alguém, nos Estados Unidos, a ler um poeta francês do século XIX à hora do almoço. Sentei-me à mesa dela. Era uma russa, com as maçãs do rosto salientes, grandes olhos negros e uma expressão simultaneamente reservada e extremamente perspicaz. Por vezes, parava de falar, deixando-me desconcertado. Perguntava-lhe o que se passava e ela respondia:

— Estou a testar a sinceridade daquilo que acabaste de dizer.

Isto fazia-me rir e eu gostava de ser "testado". Foi o início do nosso relacionamento. Levou tempo a desenvolver-se. Eu não tinha pressa, ela também não.
in Anticancro, de David Servan-Schreiber

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