"Num mundo sem deus, porque sem piedade, ela [Mary Shelley] é o anjo caído que se lembra do paraíso, mas que erra no inferno, entre os homens."
Cathy Bernheim, "Mary Shelley - Uma Biografia da Autora de Frankenstein" [pg153]
Pedaços de instantes. Instantes aos Pedaços.
"Num mundo sem deus, porque sem piedade, ela [Mary Shelley] é o anjo caído que se lembra do paraíso, mas que erra no inferno, entre os homens."
Cathy Bernheim, "Mary Shelley - Uma Biografia da Autora de Frankenstein" [pg153]
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"Nestes pioneiros do individualismo, é surpreendente encontrar tanto altruísmo. Nestes sonhadores, tanta obstinação em submeter a realidade aos seus desejos. Nestes viajantes, um tamanho desejo de, por fim, assentarem em algum lado. Nestes opositores, tanta amargura ao constatarem que já não são aceites por aqueles a quem se opõem.
Como explicar de outra forma a porfia obstinada de um [Percy] Shelley, para quem a harmonia deve reinar, soberanamente, entre as pessoas com quem convive? O seu sonho de uma comunidade de corpos e de espíritos [...] ... nada disto condiz minimamente com o retrato dele que então circula entre a sociedade bem-pensante em Inglaterra. E Mary [Shelley] essa rapariga rude, cujo 'Diário' é uma litania aplicada e estudiosa onde alternam as leituras austeras, as viagens culturais, a preocupação com os que lhe são próximos e com os seus filhos... Sim, parecem bem decentes, estas pessoas. E bem horríveis os seus compatriotas, que, através de um óculo de ver ao longe, os observam da outra margem do lago como se observam os animais numa reserva."
Cathy Bernheim, Mary Shelley - Uma Biografia da Autora de Frankenstein [pgs 77, 78]
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"Se nós saudarmos as experiências como estando "além dos nossos sonhos mais loucos" será porque estes sonhos têm servido de aviso e estão gastos. Um vazio revelador, uma tristeza da saciedade seguem-se à realização dos nossos desejos. [...] A famosa lassidão dos pós-coito, o cigarro tão aguardado a seguir ao orgasmo são precisamente aquelas coisas que servem de medida para o vazio entre a antecipação e substância, entre a imagem confabulada e o acontecimento empírico. O eros humano é parente próximo de uma tristeza ante a morte. Se os nossos processos de pensamento fossem menos prementes, menos vividos, menos hipnóticos (como nos acessos de masturbação e de sonhar acordado), o nosso constante desapontamento, aquela massa cinzenta de náusea no centro do nosso ser, seriam menos incapacitantes. Esgotamentos nervosos, fugas patológicas para a irrealidade, a inércia de quem padece de doença cerebral podem ser, na sua essência, táticas contra o desapontamento, contra a acidez da esperança baldada. As correlações fracassadas entre o pensamento e a concretização, entre o concebido e as realidades da experiência são tais que nós não conseguimos viver sem esperança. [...] "Esperar contra toda a esperança" é uma formulação poderosa, mas em última análise acabrunhante, do flagelo que o pensamento lança sobre a consequência."
George Steiner, in Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento [pg 45]
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| O voo de Ícaro, Jacob Peter Gowy |
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Segundo Adam Phillips, no seu livro, Attention Seeking, referindo-se à obra, A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, devemos procurar ter consciência (awareness) das afinidades entre a distração (supostamente negativa) e a atenção (supostamente positiva).
Por que razão damos mais atenção a umas coisas e deixamos outras passar despercebidas, quando a vida é maioritariamente feita de 'distrações', de 'à partes'? O que nos leva a lembrarmo-nos de umas coisas e de outras não. Qual a 'regra' subjacente à nossa escolha?
Laurence Sterne faz uma paródia com isso.
À medida que fui lendo o livro, o pensamento que mais vezes me foi ocorrendo foi, 'com licença de vossas mercês': WTF!!?!?
Fui ao Google e encontrei um filme baseado na obra!!! Como é possível pôr um livro, assim, em filme? Há malucos para tudo!
Guardei o filme nos meus favoritos para ver quando acabasse o livro.
Tenho algumas dúvidas se iria abarcar a ideia do filme se não tivesse lido o livro... Talvez quem nunca tenha lido o livro, veja o filme com o mesmo tipo de espanto/questionamento de quem tenha lido o livro... (?) Não sei...
Quanto ao filme, é interessante verificar como alguém escolheu pegar no livro, no que diz respeito à estrutura narrativa, à cronologia e histórias dentro de histórias, trocando as voltas ao tempo, como Laurence Sterne o fez.
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| Para ver o filme, clicar aqui |
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Mas, encurralados na grande prisão da linguagem, não chegamos a nenhuma noção plausível, muito menos "traduzível"
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Entristece-me a exagerada invasão de privacidade, nesta era que tudo se fotografa/olha e pouco se vê, de crianças de tenra idade que não têm poder para se libertarem dos disparos de câmaras óbvias mas indiscretas. Interrogo-me como serão estas crianças (sobretudo as meninas-que-se-querem-princesas) quando chegarem a adolescentes, como lidarão com o excesso de exposição pública, com o olhar do outro, com uma eventual ausência de exposição e suas consequências na auto-imagem (necessidade/procura de exposição como validação de valor...).
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“The act of looking was somehow a force in itself which changed my whole being.”
[…]
“I had measured my life in terms of circumstances. I had thought I was happy when I was having what was generally considered ‘a good time’. But when I began to try and balance up each day’s happiness I had found that there were certain moments which had a special quality of their own, a quality which seemed to be almost independent of what was going on around me, since they occurred sometimes on the most trivial occasions. They stood out because of a feeling of happiness which was far beyond what I had ordinarily meant by ‘enjoying myself’, and because of this they tended to oust all other concerns in my daily record.”
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Enquanto uns aguardam que a física quântica venha dar sentido às suas vidas, ocorre-me que a poesia, os contos de fadas e a arte, em geral, ajudam a nossa persistente criança interior a conviver com o facto de que a verdadeira condição de ser adulto é comparável a flutuarmos no espaço cósmico enquanto tentamos evitar colidir com objetos que passam voando aleatoriamente. A segurança e o conforto de um cordão umbilical já eram...
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| Robert & Shana ParkeHarrison: "suspended field" |
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"I want to achieve the play attitude. By this I mean concentration in an activity which has no apparent use just for the delight of doing it. [...] I was always full of purposes, always driving myself to do more things – to read more books, to learn more languages, to see more people, not to miss anything."
Marion Milner, A Life of One's Own [pg 63]
"I wanted to get the most out of life, but the more I tried to grasp, the more I felt that I was ever outside, missing things. At that time I could not understand at all that my real purpose might be to learn to have no purposes."
Marion Milner, A Life of One's Own [pg 65]
"So I began to wonder whether there were perhaps not many gestures which I must learn in their appropriate places, but only one which really mattered. And perhaps this one offered a third possibility in the control of attention, a possibility which the books had not made clear to me at all. I must neither push my thought nor let it drift. I must simply make an internal gesture of standing back and watching, for it was a state in which my will played policeman to the crowd of my thoughts, its business being to stand there and watch that the road might be kept free for whatever was coming. Why had no one told me that the function of will might be to stand back, to wait, not to push? The lonely policeman who relied on his physical strength to keep back the crowd would soon be swept away; as my will had constantly been by the surging thoughts."
Marion Milner, A Life of One's Own [pg 75]
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Namaste sate te
Jagat kaaranaaya
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"Through the fragmenting lens of social media we are living, increasingly, in the left-brain’s world. By stripping information of context and then actively manipulating it, social media has the power to prey upon left-brain tendencies and preferences by transforming bits of information into world-historic conspiracies."
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Each and every one's intrinsic value is beyond (independent from) what each and every one eventually manages to achieve. Achievement necessarily depends on chance and opportunity.
2021/01/24
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"– Não sei. Não sei porque foi.
– Só me lembro de te ver dar um salto de repente e perguntares "Já tiveste uma irmã?" e quando ele disse que Não, atiraste-te a ele. Reparei que não tiravas os olhos dele, mas parecia que não estavas a ligar a nada do que se dizia até ao momento em que deste um salto e lhe perguntaste se ele tinha alguma irmã.
– Ora, ele tinha começado com os seus trocadilhos, como de costume – disse o Shreve –, a gabar-se das suas conquistas. Tu sabes como é: como ele faz sempre que há raparigas, para elas não perceberem bem do que se está a falar. Tudo subentendidos e mentiras e uma data de histórias sem sentido. A falar-nos duma gaja qualquer com quem combinou encontrar-se num baile em Atlantic City e que deixou pendurada porque resolveu ir para o hotel dormir e os remorsos que sentiu por estar ali na cama e ela no pontão à espera dele, sem ninguém para lhe dar o que ela queria. A falar da beleza do corpo e do triste fim a que conduz e da má sorte das mulheres que não podem fazer mais nada senão passar a vida deitadas de costas. Não sei se estás a ver. Tipo Leda no bosque, a gemer e a chorar pelo cisne. O filho da puta. Eu também lhe dava. Só com uma diferença: eu agarrava na cesta do vinho que ela trouxe e dava-lhe com ela na cabeça como se fosse minha."
O som e a Fúria, William Faulkner [pg155]
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| Gérard Castello-Lopes, Portugal, 1957 |
"O campo de batalha apenas revela ao homem a sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos."
O som e a Fúria, William Faulkner [pg75]
"Depois o comboio continuou, com uma corrente de ar persistente a entrar pela porta aberta até se espalhar por todo o interior transportando o odor do verão e da escuridão, mas não da madressilva. O odor da madressilva era o mais triste de todos, acho eu. e lembro-me de tantos. O das glicínias era um. Nos dias de chuva quando a Mãe não se sentia tão doente que tivesse de ficar sentada à janela costumávamos ir brincar para a chuva. Quando a Mãe ficava na cama a Dilsey vestia-nos roupas velhas e deixava-nos ir para a chuva porque dizia ela a chuva nunca fez mal aos catraios. Mas se a Mãe estava levantada começávamos por ficar a brincar no alpendre até ela dizer que estávamos a fazer muito barulho, e então íamos brincar lá para fora para debaixo do caramanchel das glicínias. Aqui foi onde vi o rio pela última vez esta manhã, foi mais ou menos por aqui. Sentia a água para lá do crepúsculo, sentia-lhe o cheiro. Quando as árvores estavam em flor na primavera e estava a chover o cheiro espalhava-se por toda a parte não se notava tanto nas outras vezes mas quando chovia o cheiro entrava pela casa dentro com o crepúsculo ou chovia mais à hora do crepúsculo ou então era qualquer coisa que a luz tinha mas cheirava sempre mais nessa altura e eu na cama a pensar quando é que isto acaba quando é que isto acaba."
O som e a Fúria, William Faulkner [pg158]
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