"Este velho, que toda a sua vida trocara uma verdade clara por uma verdade ainda mais luminosa, um belo rosto amado por outro ainda mais belo, trocava enfim a morte lenta e banal que lhe preparavam dentro de si as artérias, por uma morte mais útil, mais justa, engendrada pelos seus actos, nascida dele como uma filha devotada que viesse sentar-se a seu lado na cama ao cair da noite. Esta morte suficientemente sólida para durar alguns séculos em torno da sua lembrança, inseria-se na sequência de bons actos de que a sua vida fora constituída e prolongava o seu caminho para uma vida eterna. [...] Este sábio compreendera, sem dúvida, que a única razão de ser das áleas do Discurso, que incansavelmente percorrera durante toda a vida, é de conduzirem à beira do silêncio onde bate o coração dos deuses. Chega sempre o momento em que aprendemos a calar-nos, talvez por nos tornarmos finalmente dignos de escutar, em que deixamos de agir porque aprendemos a olhar fixamente qualquer coisa de imóvel, e essa sabedoria deve ser a dos mortos."
Marguerite Yourcenar, in Fogos
Silêncios
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