"Trata-se sempre de concretizar o sentimento ou a ideia em formas tornadas em si mesmas preciosas (o termo é, por si, revelador), como essas gemas que devem a densidade e o brilho às pressões e temperaturas quase insuportáveis por que passaram; ou ainda de obter da linguagem as volutas perfeitas dos trabalhos renascentistas em ferro forjado, cujos complicados entrelaçados foram primeiro de ferro ao rubro. O que se pode dizer de pior sobre essas audácias verbais é que aquele que a elas se dedica corre o perpétuo risco do abuso e do excesso, tal como o escritor votado aos litotes clássicos roça constantemente o perigo da seca elegância e da hipocrisia.
Se o leitor não vê, muitas vezes, mais do que preciosismo (no mau sentido da palavra) naquilo a que chamo de bom grado expressionismo barroco, é, nove em cada dez vezes, porque o poeta cedeu efectivamente ao desejo de espantar, de agradar ou desagradar a qualquer preço; acontece por vezes também que esse mesmo leitor é incapaz de ir até ao fim de uma ideia ou emoção que o poeta lhe oferece, onde erradamente, só vê metáforas forçadas e frios conceitos."
Marguerite Yourcenar, in Fogos


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