"O capitalismo moderno precisa de uma grande quantidade de homens que colaborem sem levantar problemas, que queiram consumir cada vez mais, e cujos gostos estejam nivelados e sejam altamente influenciáveis e previsíveis. Precisa de homens que se sintam livres e independentes, que não se sintam sujeitos a qualquer autoridade, princípio ou consciência — e que contudo queiram ser chefiados, cumprir exigências e ocupar o seu lugar na maquinaria social sem atritos; que possam ser comandados sem recorrer à violência, chefiados sem chefes e motivados sem objectivos, com o objectivo único de ter um bom desempenho, de estar em constante movimento, de funcionar e de progredir.
Qual é o resultado? O Homem moderno está alienado de si mesmo, dos seus semelhantes e da natureza. Ele transformou-se numa matéria-prima e vive como se a sua vida fosse um investimento para lhe dar o maior lucro possível sob as condições de mercado presentes. As relações humanas são essencialmente relações entre autómatos alienados, e a segurança de cada um depende de estar inserido na manada e de não ter pensamentos, sentimentos nem acções diferentes. Embora todos tentem aproximar-se o mais possível, todos estão sós, dominados pela profunda sensação de insegurança, ansiedade e culpa que resulta da impossibilidade de se ultrapassar a separação entre os homens. A nossa civilização oferece muitos paliativos que ajudam as pessoas a ficarem conscientemente inconscientes desta solidão: primeiro, temos a rotina rigidamente burocratizada e o trabalho mecanizado, que ajudam as pessoas a ignorar os seus desejos humanos mais fundamentais, como o desejo da transcendência e da unidade. Se a rotina por si só não o conseguir, o Homem pode ultrapassar o seu desespero inconsciente através da rotina do divertimento, do consumo passivo de sons e imagens oferecidos pela indústria do lazer, ou através da satisfação de comprar constantemente coisas novas e de as trocar rapidamente por outras."
Erich Fromm, in A Arte de Amar
do admirável mundo novo
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