The Quantified Self e narrativas... e o esquecimento

"A crença na mensurabilidade e na quantificabilidade da vida domina a totalidade da era digital. O Quantified Self presta homenagem a essa crença. O corpo é equipado com sensores que registam dados de maneira automática. Medem-se a temperatura corporal, a glucose no sangue, o teor calórico, o consumo de calorias, perfis de movimento ou partes adiposas do corpo. Na meditação medem-se as pulsações. Até mesmo na relaxação, o que conta é o rendimento e a eficácia. Registam-se as sensações, os estados de espírito e as actividades quotidianas. A partir da automedição e do autocontrole far-se-á aumentar o rendimento corporal e espiritual. Todavia, a simples multiplicidade dos dados acumulados não dá resposta à pergunta: Quem sou eu? O Quantified Self é também uma técnica dadaísta que decompõe o eu em dados até o esvaziar de sentido.
O lema do Quantified Self é: Self Knowledge through Numbers – autoconhecimento por meio de números. Os dados e os números, por muito que abranjam, não proporcionam o autoconhecimento. Os números não contam nada sobre o eu. A numeração não é uma narrativa."

[...] "A sociedade humana é uma narrativa, um relato do qual o esquecimento faz necessariamente parte. A memória digital é uma adição e uma acumulação sem lacunas. Os dados registados são enumeráveis, mas não narráveis. O guardar e recuperar distinguem-se substancialmente da recordação, que é um processo narrativo. A autobiografia é um escrito narrativo da recordação."

[...] "Anuncia-se uma nova era do conhecimento. As correlações substituem as causalidades. O isso é assim substitui o porquê. A quantificação do real em busca de dados expulsa o espírito do conhecimento."

[...] "É simplesmente assim. Trata-se de uma relação de probabilidade, mas não de necessidade. A relação traduz-se: é frequente que A tenha lugar juntamente com B. É o que distingue a correlação da relação causal. A necessidade é distintiva da relação causal: A causa B."
Byung-Chul Han, Psicopolítica

No comments: