A dor é uma paisagem

"A dor é uma paisagem."

"Quando deixamos por instantes o subconsciente à solta, ele começa naturalmente a criar enredos. Cria uma identidade, adapta-se ao meio,inventa novas formas para preencher o vazio que entretanto se faz quando esquecemos a nossa vida imediata.
Não há nada pior para o subconsciente, parece,do que a sensação de não ser ninguém."

"E, ao mesmo tempo, é perfeitamente claro que aquilo era impossível entre nós. Foi puro milagre que a nossa história durou tanto tempo.
Tudo, toda a nossa vida estava baseada num só princípio muito simples, um acordo:
Proibição de nos vermos. Quero dizer, proibido vermo-nos verdadeiramente um ao outro.
É um jogo bastante complicado, o de tentar manter um tal acordo durante doze ou treze anos sem nunca deixar cair a máscara, mesmo quando estamos zangados ou muito tristes. É como se vivêssemos fechados numa sala exígua com alguém, com a condição de lhe virar sempre as costas.
É preciso perceber, claro, o que há por trás de um tal acordo.
A meu ver é a dor. Uma espécie de sofrimento original, que carregamos desde a infância e que não deverá ser mostrado. O facto de o sofrimento estar escondido é bem mais importante do que a sua existência."

"E agora ali estava eu, a apresentar uma senhora, claramente o grande amor da minha vida, à minha mulher. [...] Uma utopia, pensei eu. Uma utopia tornada realidade. Sempre o pressenti. Nada nos impede, afinal de contas, de viver fora das regras. E pensar que nunca tinha percebido isto!"

"A infância é um tempo solitário, concentrado em si mesmo."

Lars Gustafsson, A Morte de Um Apicultor

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