Balanços / da meia idade

La Divina Comedia, Salvador Dalí
"[...] escrita há mais de seiscentos anos, esta era a mais antiga descrição que conhecia da crise da meia-idade e da sua resolução. "No meio da viagem da nossa vida", escreve Dante no primeiro verso do seu vastíssimo e rico poema, "encontrei-me numa floresta sombria, porque tinha perdido completamente o bom caminho". O que acontece depois é o relato fascinante e, sob muitos aspectos, determinante, das dificuldades que se nos deparam na meia-idade. [...] Dante também constitui um modelo importante por uma outra razão. Embora no seu poema transpareça uma ética religiosa profunda, torna-se evidente para quem o leia que a religiosidade de Dante não é uma crença aceite, mas descoberta. Por outras palavras, o lema de vida religioso que criou era constituído pelas melhores visões do cristianismo aliadas ao melhor da filosofia grega e da sabedoria islâmica que tinha chegado à Europa. Por outro lado, o seu inferno está densamente povoado de papas, cardeais e padres condenados ao sofrimento eterno. Até Virgílio, seu mentor principal, não é um santo cristão mas um poeta pagão. Dante viu que qualquer sistema de ordem espiritual, quando integrado numa estrutura mundana como uma igreja organizada, começa a sofrer os efeitos da entropia. Assim, para extrair significação de um sistema de crenças, a pessoa tem primeiro de comparar a informação nele contida com a experiência concreta, reter o que faz sentido e rejeitar entretanto o resto."
Mihaly Csikszentmihalyi, in Fluir

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