da quadradice*
"Só podemos ter consciência de que vimos uma árvore depois de termos visto a árvore, e entre o momento da visão e o momento da consciência deve haver um retardamento de tempo. Às vezes pensamos que esse retardamento de tempo não é importante. Mas não há nenhuma justificação para pensar isso, absolutamente nenhuma. O passado só existe nas nossas memórias, o futuro só existe nos nossos planos. O presente é a nossa única realidade. A árvore de que temos intelectualmente consciência, por causa do pequeno retardamento de tempo, está sempre no passado e, portanto, é sempre irreal. Qualquer objecto intelectualmente concebido está sempre no passado e é, portanto, irreal. A realidade é sempre o momento da visão antes de a intelectualização se verificar. Não há outra realidade. Esta realidade pré-intelectual era aquilo que Fedro julgava ter identificado correctamente como Qualidade. Dado que todas as coisas intelectualmente identificáveis têm de emergir desta realidade pré-intelectual, a Qualidade é a mãe, a origem de todos os sujeitos e objectos. Ele achava que os intelectuais têm geralmente a maior dificuldade em ver esta Qualidade, precisamente porque são tão rápidos e absolutos na transformação de tudo em forma intelectual. Aqueles que têm maior facilidade em ver esta Qualidade são crianças pequenas, pessoas não instruídas e pessoas culturalmente "destituídas". […] Por isso, achava ele, a quadradice é uma doença tão exclusivamente intelectual. […] Os quadrados, dizia, devido aos seus preconceitos contra a intelectualidade, geralmente vêem a Qualidade, a realidade pré-intelectual, como não sendo importante, um mero período de transição em que nada acontece entre a realidade objectiva e a sua percepção. Porque têm ideias preconcebidas quanto à sua falta de importância, não procuram descobrir se é de alguma maneira diferente do conceito intelectual que dela têm."
Robert M. Pirsig, in Zen e a Arte de Manutenção de Motociclos
*No inglês, "square" – pessoa antiquada, retrógrada, mentalmente pouco evoluída.
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