Os livros e as recordações acumulavam-se, adensavam-se. E cada livro continha uma pitada da verdade e cada recordação insinuava que é vão conhecer a verdadeira natureza das relações humanas, porque nenhum conhecimento torna uma pessoa mais sábia. E é por isso que não temos o direito de exigir a verdade e a fidelidade absolutas daquela pessoa que um dia tínhamos aceite como amigo, mesmo que os acontecimentos tivessem demonstrado que esse amigo foi infiel.
As Velas Ardem Até ao Fim, Sándor Márai

Welcome to the club, pá

As pessoas de quem gostava, não gostavam de mim. As pessoas que gostavam de mim, acabavam por se desinteressar porque eu não gostava delas.

Em termos de virtudes, reconheço-me a honestidade, a perseverança, um espírito crítico bem apurado, talvez intransigente em situações que mereceriam alguma condescendência, desassombro perante o poder. Gosto do país em que vivo, mas odeio cada vez mais as suas elites. Há ocasiões em que chego a ter-lhes nojo.

Sinto-me profundamente mal com as assimetrias cada vez mais marcantes na sociedade portuguesa, com esta oligarquia disfarçada de democracia, com uma sociedade onde o mérito conta sempre menos do que o amiguismo, as afinidades electivas, os caciques, as confrarias, os elos familiares mais ou menos evidentes. Sinto que com a maior das facilidades se promove muita porcaria e que dificilmente alguém fora dos meios convencionais de produção, seja daquilo que for, consegue ver o seu mérito reconhecido ou a sua falta de mérito convenientemente criticada.
Mais aqui.

Aqui eu podia ser feliz

Mão-de-Obra



Se eu tivesse que tratar de mancúspias também haveria de sofrer de cefaleia.

Os muros que construo são de areia



A mim, já ninguém me magoa
porque já fui magoada tanta vez.

A mim, já ninguém me magoa porque de tanto sofrer
ganhei calo e resiliência.

A mim, já ninguém me magoa
porque não guardo ressentimentos.

A mim magoam-me muito
porque optei por partilhar a minha carne e a minha alma.
E como ser humano que sou,
cometo erros e engano-me em quem insisto confiar.

A mim magoam-me muito porque desvalorizo os ressentimentos.

A mim magoam-me muito porque a minha raiva é momentânea
e as memórias vão largando as emoções, como despojos.

Scraps

Ando pela vida recolhendo bocados de mim, espalhando bocados de mim.

Intervention divine


de Elia Suleiman

As I skipped out this morning,

skipping down Castro Street,

the queens upon the asphalt

were racks of hanging meat.


The Pendulum was open.

The Mix had yet close.

I stepped into the latter

to down a bitter dose.


We danced to “Only You”

by Teddy Pendergrass.

I sniffed a fetid boy.

I felt his denim ass.


The bears admired their beers.

The chat turned flat and racy.

The bartender's a clown—

we call him John Wayne Gacy.


He makes me laugh for breakfast;

he serves me guilt for lunch.

And when it’s time for dinner,

he gives my face a punch:


I feign dismay then ask

if I may have another.

He smiles and always says,

I am not your mother.


A bear began to sing:

“The night is falling soon.

And love is never love

without a tub of ruin.


And lounging in the ruin,

what becomes of us?

Narcissus in the water

strangled Commodus.”


He sucked a little straw

then shut his fuzzy trap.

This place is just a station

on the oblivion map.


I live a block away.

Oh yes, I live alone.

I won’t be coming back.

I do not have a phone.


I can’t provide the moon.

I hope you've said your prayers.

I have a special room

down the cellar stairs.

Randall Mann


Chagall! :-)


Aqui

Urban dictionary



Internest
: The cocoon of blankets, pillows, duvets, and comfy things you gather around yourself to keep warm whilst spending long amounts of time on the internet.

Há coisas que são mesmo óbvias...


Change blindness

... Mas para muitos (75%!!!!), nem por isso!
E eu já nem estou a falar de coisas subjectivas, realidades que se misturam com emoções e tal...

E Você?


Tem por hábito testar os outros, manipulando situações, para ter a confirmação de que aquilo que pensa sobre eles está correcto?

E Você?



Imagine você que um grande amigo de longa data resolve achar que você anda a persegui-lo e isso perturba-o (a ele) muito.

Imagine você que esse amigo, há muitos anos, lhe concede o uso de uma sua propriedade, de forma regular.

Independentemente das eventuais consequências resultantes da animosidade que o seu amigo alimenta em relação a si ...

Você sentir-se-ia bem (acharia bem) continuar a fazer uso da dita propriedade?

When it comes to fighting for legitimate rights...

Para os campeões (são aos magotes!)


Salo, Pier Paolo Pasolini

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.