Goals...

 "A nossa mesada, de tão modesta que era, não teria sido suficiente, embora a poupássemos quase toda para esse fim. Mas eu também recebia todos os dias uns tostões para ir comprar um bolo ao bedel para a merenda das dez. Eu sentia fome, mas era muito mais entusiasmante poupar este dinheiro até ter que chegasse para oferecer um livro novo à mãe. Antes de mais, eu tinha de ir à Rascher saber o preço, e já era um prazer visitar aquela livraria no Cais do Limmat, sempre cheia de gente, estar com as pessoas que, muitas vezes, nos faziam perguntas acerca dos nossos futuros presentes, e naturalmente também abarcar com o olhar todos os livros que eu haveria de ler um dia. Não era tanto por me sentir mais crescido e mais responsável no meio desses adultos, mas pela promessa de leituras futuras, que nunca se esgotariam. Pois se havia coisa que, nesses dias, de facto me preocupava em relação ao futuro, era a disponibilidade de livros no mundo. O que aconteceria quando eu já os tivesse lido todos? É certo que eu preferia ler aquilo de que gostava uma e outra vez, mas essa alegria pressupunha a certeza de que mais e mais livros se seguiriam.

Depois de saber o preço do planeado presente, começavam as contas: Quantas merendas das dez teria eu de poupar para conseguir juntar o suficiente? Eram sempre alguns meses: moeda a moeda, lá se materializava o livro. Face a este objectivo, nem sequer se punha a tentação de, pelo menos uma vez, como faziam alguns dos meus colegas, comprar de facto um bolo e comê-lo à frente dos outros. Pelo contrário, sempre que um deles estava a comer o seu bolo, gostava de ficar ao seu lado e imaginar, com uma espécie de comprazimento – não sei exprimi-lo de outra maneira –, a surpresa da minha mãe quando lhe passássemos o livro para a mão."

A Língua Resgatada, Elias Canetti

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