Quando a infantilidade nos tira do sério...

Quando se valoriza mais a aparência (comportamento) do que a substância, o resultado é a paranóia.

Quando a paranóia vem de cima, instala-se o medo e, consequentemente, a obediência cega dos temerosos e acomodados. Obediência motivada pelo impulso de agradar, de mostrar serviço. 

Entretanto, os que se indignam, e se rebelam, pegando em armas e participando em manifestações anti regime, são alvo de perseguição e, quando apanhados, são humilhados. Servem de bode espiatório. São como canais através dos quais os fracos — os que desesperam por validação — expurgam a sua culpa e frustrações.

O bullying institucionalizado. 
A infantilização da sociedade.

 Reflexão inspirada em memórias que me vieram à cabeça, espoletadas por esta leitura:

"Nos países comunistas, a inspecção e controlo dos cidadãos são actividades sociais permanentes e essenciais. Um pintor, para ser autorizado a expor, um simples cidadão, para obter um visto para passar férias à beira-mar, um futebolista, para poder jogar na selecção nacional, têm primeiro que recolher os mais variados relatórios e certificados (da porteira, dos colegas, da polícia, da célula do partido, do comité da empresa), que depois são amontoados, sopesados, lidos e relidos por funcionários especialmente afectos a essa tarefa. O que vem escrito nos atestados não tem absolutamente nada a ver com a competência de um cidadão para pintar ou jogar à bola ou com um estado de saúde que exija uma estada à beira-mar. Só contêm informações a respeito de uma coisa que é o chamado "perfil político" do cidadão (aquilo que o cidadão diz, aquilo que pensa, a maneira como se comporta, se vai ou não às reuniões e aos desfiles do 1° de Maio). Como tudo (vida quotidiana, empréstimos, férias) depende da forma como se é classificado, todos os cidadãos são obrigados (para poderem jogar na selecção nacional, expor os seus quadros ou passar férias à beira-mar) a comportar-se de maneira a ser bem classificados."

Milan Kundera, in A Sustentável Leveza do Ser [pag 115]

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