É sempre a mesma merda

"É sempre a mesma merda. Vamos para a escola, depois para o liceu, depois para a universidade, e passamos por várias represas que nos levam a uma linguagem cada vez mais refinada. E mais abstrata. Estamos com pressa de aprender. No liceu era fácil perceber a diferença entre as crianças oriundas de classes sociais mais baixas e as de classe média.

Os miúdos pobres falavam uma linguagem mais rude, sem ilusões. Passei por essa experiência depois, quando comecei a dar aulas.

Uma perspectiva rasteira, em que as motivações de todos os atos eram duras, egoístas, cínicas.

Pelo contrário, a linguagem da classe média era a mais indefinida de todas. Baseia-se na crença de que, para subir os escalões da hierarquia social, é preciso agirmos como se já lá estivéssemos, o que cria uma estranha falta de segurança, que é transversal a todo o sistema. Sabemos o que querem dizer as palavras, e ao mesmo tempo não as entendemos.

Por exemplo, já há vários meses que estou com "cagaço". Noutra linguagem diríamos: "sinto angústia perante a morte". A angústia perante a morte dá uma dimensão totalmente diferente à coisa, como se fosse mais sábio dizer "angústia da morte" do que dizer "cagaço".

Não creio que esta dimensão mais sábia exista.
Nunca como nos últimos meses foi tão evidente para mim que a sociedade tem um subconsciente.
Talvez aconteça porque o medo me liberta de todas as linguagens que me foram ensinadas, para melhor me defender dele. Começo a entender as coisas com a mesma terrível lucidez, a mesma lucidez apavorada de um miúdo.

O subconsciente da sociedade. Os animais dos laboratórios que são lentamente torturados até que a morte os leve, com tubos ligados às veias e ao estômago, com células cancerosas implantadas em fígados de cães por meio de agulhas compridas. Os corredores dos hospitais psiquiátricos, os alcoólicos trémulos e magros de Storbron, em Västerås.

Há sempre um preço terrível a pagar. Mas a quem? E porquê? E o que foi que pagou a minha existência até agora?"

Lars Gustafsson, A Morte de Um Apicultor

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