"O velho fundo da minha biblioteca dos tempos de solteira, deixara-o eu na Rússia: tanto os nossos grandes poetas, alemães e russos, como os livros que utilizara nos meus estudos semi-secretos de outrora, e que em parte adquirira com grandes dificuldades e às escondidas, em troca de jóias que fui vendendo com esse fim (desse modo, obtive, por exemplo, as obras de Spinoza). Mas um dos principais e mais penosos motivos da mísera situação das minhas bibliotecas é o seguinte: o volume e peso dos livros tornava-se tão difícil ler deitada que preferia lê-los aos bocados, sem voltar depois a mandá-los encadernar. Por fim, nunca deixei de os emprestar e oferecer, especialmente os que mais estimava, coisa que segundo receio, decorre de um motivo algo absurdo: falta de apreço pelo exemplar de papel mil vezes reproduzido, como se, em rigor, o conteúdo devesse substituir por si só, à maneira de um fantasma, no olhar, independentemente do papel."
Lou Andreas-Salomé, Um Olhar para trás
Papeis pintados com tinta
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