"Nicolau Copérnico aperfeiçoou a sua descrição dos movimentos dos planetas quando era cónego na catedral de Frauenburg, na Polónia. O seu trabalho astronómico não ajudou certamente a sua carreira eclesiástica e, durante a maior parte da sua vida, as principais recompensas que obteve foram estéticas, resultantes da singela beleza do seu sistema em comparação com o pesado modelo Ptolomaico. Galileu tinha estudado medicina e, o que o levou a experiências cada vez mais arriscadas, foi o deleite que sentia em imaginar coisas como a localização do centro de gravidade dos vários objectos sólidos. Isaac Newton formulou as suas principais descobertas muito pouco tempo depois de se ter licenciado em Cambridge, em 1665, altura em que a universidade foi encerrada por causa da peste. Newton teve de passar dois anos no campo, num retiro seguro mas entediante, e ocupou o tempo a brincar com as suas ideias sobre a teoria universal da gravidade. Antoine Laurent Lavoisier, fundador da química moderna, era funcionário público da Ferme Générale, o equivalente ao Ministério das Finanças na França pré-revolucionária. Estava também envolvido na reforma agrária e no planeamento social, mas o que mais gostava de fazer eram as suas belas experiências clássicas. Luigi Galvani, que fez investigação de base sobre como músculos e nervos conduzem a electricidade, a qual, por seu turno, levou à invenção da bateria eléctrica, exerceu medicina até ao fim da sua vida. Gregor Mendel foi outro homem da igreja, cujas experiências, resltantes do seu gosto pela jardinagem, constituíram a base da genética. Quando, já no fim da vida, perguntaram a Albert A. Michelson — a primeira pessoa, nos Estados Unidos, a receber um prémio Nobel de ciência — porque tinha dedicado tanto tempo a medir a velocidade da luz, ele terá respondido: <<Era tão divertido>>. E, convém não esquecer, Einstein escreveu os seus ensaios mais importantes quando trabalhava no Departamento Suíço de Patentes. Estes, e tantos outros grandes cientistas que facilmente poderíamos referir, não sentiram a sua capacidade de pensamento diminuída por não serem <<profissionais>> do seu ramo, isto é, figuras reconhecidas com recurso a apoios legítimos. Fizeram apenas aquilo que gostavam de fazer."
Mihaly Csikszentmihalyi, in Fluir
Quem corre por gosto...
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