"Não estou aqui a inventar nada de novo, mas sim a esquematizar um mecanismo prático deduzido a partir daquilo que presumo serem as operações neutrais de decisão e de acção. Durante milénios, chefes sagazes optaram por uma solução semelhante ao pedirem aos seus seguidores que observassem rituais disciplinados cujo efeito secundário terá sido uma imposição gradual de decisões tomadas conscientemente sobre processos de acção não-conscientes. Não admira que muitas vezes esses rituais envolvessem a criação de emoções exaltadas, até mesmo dor, um modo de gravar o mecanismo desejado na mente humana. No entanto, aquilo que estou a imaginar vai muito além dos rituais religiosos e cívicos, englobando questões da vida diária ligadas a diversas áreas. Estou a pensar, especificamente, em questões de saúde e de comportamento social. Os nossos conhecimentos insuficientes sobre os processos não-conscientes talvez expliquem, por exemplo, o motivo por que muitos de nós falham por completo quando se trata de fazer o que supostamente deveria ser feito em relação à dieta e ao exercício. Pensamos ter o controlo, mas é frequente não o termos, como o comprovam as epidemias de obesidade, hipertensão e doenças cardíacas. A nossa constituição biológica leva-nos a consumir o que não devemos, mas o mesmo pode ser dito das tradições culturais que se foram inspirar nessa constituição biológica e que foram moldadas por ela, e mesmo da indústria da publicidade que a explora."
António Damásio, in O Livro da Consciência


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