Quem dá o que tem, a mais não é obrigado / Surviving desire / Pérolas a porcos



Mal abrira os olhos o cérebro parecia já estar a duzentos. Os pensamentos invadiam o espaço sem pedir autorização. A oportunista ansiedade apoderava-se do seu corpo de forma galopante.
Há mais de 25 anos que se esforçava por se adaptar. Sabia que os príncipes encantados eram matéria de contos de fadas e a vida apresentava-lhe exemplos de resiliência, que admirava. Sempre esperou que as coisas se compusessem, ou não fosse uma pessoa batalhadora e determinada, com grande capacidade de acreditar que a vida haveria de compensar tanto esforço. Esperou dez anos para ter o tão sonhado filho, pois o respeito pelo próximo era algo incontornável. Ter filhos era uma coisa demasiado séria. Fez tudo direitinho, conforme a sua lei mandava.
As rotinas assassinas e os percalços da existência diária foram gravando sulcos. A princípio, quase imperceptíveis, e cada vez mais evidentes com o passar dos anos.
A frustração veio para se instalar, salpicando a existência de momentos de ódio, negação e revolta.
Fizera tudo tão direitinho. Com tanto sentido de responsabilidade.
Embarcou na missiva, inconsciente e desesperada, de tentar mudar o que não dependia de si.
A inocência é santa e bonita.
A tristeza e a ansiedade escolheram residência permanente no seu corpo, delapidando, a pouco e pouco, cada célula, cada órgão, minando a sua existência.

Um invólucro cuidado, do qual gostava e no qual começava a observar os traços do Tempo e do sofrimento.

Foi-se fechando numa concha.

Graças às suas fortes convicções e à sua teimosa honestidade para com a sua pessoa, fazia por não se deixar afectar quando lhe diziam que não tinha coração.
Que só tinha caca na cabeça.
Que lhe faltava açúcar.

(De facto, tinha banido o açúcar do seu regime alimentar fazia vários anos).

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