To not get lost in translation / defesas / Survival


M C Escher

Talvez por ter interiorizado o meu percurso de vida como algo sempre provisório — inúmeras mudanças de casa, mudanças de país e de continente diversas vezes ao longo da infância e da adolescência, mudanças de língua falada e escrita, o esquecimento total da língua materna, a perda de referências acerca do que era a minha família alargada, alguma instabilidade familiar que, consequentemente, sem surpresas (hoje) daí surgia, irmãos mais novos que requeriam mais atenção, constantes despedidas para não mais voltar a ver — a verdade é que a única coisa verdadeiramente certa que me foi sobrando foi o meu mundo interior, a minha imaginação e o meu pensamento, contando sempre comigo como referencial certo e seguro.
Por força das circunstâncias e/ou por tendência inata (?), o exercitar o pensamento foi algo que me foi fazendo companhia. Uma necessidade, um constante reajustar do referencial. Só comecei a ser uma verdadeira e inveterada tagarela depois dos vinte e alguns anos. Até lá, era o silêncio, a reserva e a timidez que imperavam neste corpo.
Hoje, verifico que o exercício do pensamento objectivo é algo que me fascina cada vez mais. O pensamento "puro", livre de emoção. O raciocínio pelo raciocínio.
Verifico, também, que não é algo muito habitual nos dias que correm. Não existe o hábito de pensar metodicamente. Há uma natural tendência, enorme, para a subjectividade e uma certa dificuldade para pensar sem emoção.
Julgo que o desenvolvimento do raciocínio objectivo pode ajudar imenso na construção da capacidade para dialogar.

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