A insustentável leveza do ser

"[...] o fim que se persegue está sempre oculto. Uma rapariga que quer um marido,  quer uma coisa que desconhece completamente. O rapaz que anda em busca da glória não faz a mínima ideia do que a glória é. O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida."

Milan Kundera in, A Insustentável Leveza do Ser [pag 141]

Quando a infantilidade nos tira do sério...

Quando se valoriza mais a aparência (comportamento) do que a substância, o resultado é a paranóia.

Quando a paranóia vem de cima, instala-se o medo e, consequentemente, a obediência cega dos temerosos e acomodados. Obediência motivada pelo impulso de agradar, de mostrar serviço. 

Entretanto, os que se indignam, e se rebelam, pegando em armas e participando em manifestações anti regime, são alvo de perseguição e, quando apanhados, são humilhados. Servem de bode espiatório. São como canais através dos quais os fracos — os que desesperam por validação — expurgam a sua culpa e frustrações.

O bullying institucionalizado. 
A infantilização da sociedade.

 Reflexão inspirada em memórias que me vieram à cabeça, espoletadas por esta leitura:

"Nos países comunistas, a inspecção e controlo dos cidadãos são actividades sociais permanentes e essenciais. Um pintor, para ser autorizado a expor, um simples cidadão, para obter um visto para passar férias à beira-mar, um futebolista, para poder jogar na selecção nacional, têm primeiro que recolher os mais variados relatórios e certificados (da porteira, dos colegas, da polícia, da célula do partido, do comité da empresa), que depois são amontoados, sopesados, lidos e relidos por funcionários especialmente afectos a essa tarefa. O que vem escrito nos atestados não tem absolutamente nada a ver com a competência de um cidadão para pintar ou jogar à bola ou com um estado de saúde que exija uma estada à beira-mar. Só contêm informações a respeito de uma coisa que é o chamado "perfil político" do cidadão (aquilo que o cidadão diz, aquilo que pensa, a maneira como se comporta, se vai ou não às reuniões e aos desfiles do 1° de Maio). Como tudo (vida quotidiana, empréstimos, férias) depende da forma como se é classificado, todos os cidadãos são obrigados (para poderem jogar na selecção nacional, expor os seus quadros ou passar férias à beira-mar) a comportar-se de maneira a ser bem classificados."

Milan Kundera, in A Sustentável Leveza do Ser [pag 115]

Understanding is love’s other name

"Among the things I most cherish about science is the way it anneals curiosity. True curiosity is an open wonderment at what something is and how it works without emotional attachment to the outcome of observation and experiment. It is only when we cede emotional attachment that we can be truly free from judgment, for all judgment is feeling — usually some species of fear — masquerading as thought. And when we judge, we cannot understand. True curiosity is therefore a form of love, because, as the great Zen teacher Thich Nhat Hanh so plainly and poignantly put it, “understanding is love’s other name.”"


Maria Popova



Bullying


A respeito de bullying e das suas etapas, desde a humilhação inicial do considerado mais fraco/diferente, passando pela cobardia de quem assiste ao espectáculo sem nada fazer, até ao 'virar o bico ao prego' acusando a real vítima.

Uma portentosa descrição de E  E. Cummings:

"Os da promenade tinham-se mostrado particularmente barulhentos,pensei. Agora subiam para O Quarto Enorme fazendo um estardalhaço verdadeiramente tremendo. Mal as portas se abriram entraram por ali dentro meia dúzia de sujeitos frenéticos,que começaram imediatamente a falar-me numa qualquer coisa terrível que o meu amigo noir tinha acabado de fazer. Ao que parece o Marrano da Gabardina Cintada tinha puxado o lenço de Jean( a prenda de Lulu de outros tempos )que Jean trazia sempre conspicuamente no bolso do peito;que Jean agarrou a cabeça do Marrano entre as duas mãos,segurou-a firmemente,baixou a sua própria cabeça,e enfiou no impotente Marrano uma valente cabeçada que mais parecia de um touro — o impacto da cabeça de Jean no nariz do Marrano fez com que o bem conhecido apêndice fosse ocupar uma nova posição nas proximidades da orelha direita. B corroborou a descrição,acrescentando que o nariz do Marrano estava partido e que todos estavam a atirar-se a Jean por lutar de maneira tão pouco desportiva. Fui dar com Jean ainda zangadíssimo,e sobretudo muito magoado por todos agora o evitarem. Disse-lhe que pessoalmente tinha ficado contente com o que ele tinha feito;mas nada conseguia animá-lo. O Marrano estava agora a entrar,com um aspecto horroroso de se ver,tendo sido remendado por Monsieur Richard com copiosos emplastros. O nariz não estava partido,disse ele numa voz pastosa,mas simplesmente encurvado. Aludiu obscuramente aos sarilhos que esperavam le noir;e recebeu a comiseração de todos os presentes exceto Mexique,O Zulu,B e eu. O Zulu,estou-me a lembrar,apontou para o seu próprio nariz( que não era nada insignificante ),depois para Jean,e depois fez uma careta de excruciante angústia,com uma audível piscadela de olho.

Jean tinha-se ido abaixo. O quase unânime veredicto contra ele tinha convencido a sua alma extremamente sensível que tinha agido mal. Deixou-se ficar estendido imóvel,sem uma palavra para ninguém. 

Pouco depois de la soupe,cerca das oito horas,O Marrano Brigão e o da Gabardina Cintada atiraram-se de repente a Jean Le Nègre sem nenhum motivo;e desataram a espancá-lo cruelmente. Abatido pelos remorsos aquele magnífico pilar de músculos — que podia ter matado facilmente os seus atacantes com um só golpe — não só não respondeu à violência como se recusou inclusivamente a defender-se. Sem oferecer resistência,com esgares de dor,os braços levantados mecanicamente e de cabeça baixa,foi empurrando entre murros assustadores até à janela ao lado da sua cama,e daí até ao canto( derrubando o banco do pissoir ),depois ao longo da parede até à porta. À medida que o castigo aumentava Jean gritava como uma criança : "Laissez-moi tranquille!" — incessantemente;e a voz dele foi ganhando rapidamente um tom de loucura. Por fim,num uivo de dor,precipitou-se para a janela mais próxima;e enquanto os Marranos unidos o esmurravam ele gritava por socorro para o planton postado em baixo. —

A consternação e os aplausos sem paralelo causados por esta batalha unilateral tinham há algum tempo alarmado as autoridades. Estava eu ainda a tentar abrir caminho por entre as filas com uma largura de cinco pessoas que formavam um círculo de espectadores( entre elas O Estafeta,que me aconselhou a desistir e que recebeu em troca um outro bom conselho ) — quando a porta se escancarou com tremendo estrondo;e entraram quatro plantons de revólver em punho,com um medo de morte no rosto,seguidos pelo Surveillant que empunhava uma espécie de bastão e gritava debilmente : "Qu'est-ce que c'est!" Ao primeiro ruído da porta a abrir-se os dois Marranos tinham-se escapado,e armavam-se agora em espectadores inocentes. Só se via Jean em cena. Tinha a boca aberta. Os olhos enormes. Arquejava como se o coração estivesse prestes a rebentar. Mantinha ainda os braços levantados como se visse diante de si novos inimigos. Havia sangue a salpicar aqui e ali o maravilhoso tapete de chocolate da sua pele,e todo o corpo luzia de suor.
A camisa sobre a bela musculatura estava em farrapos.

Sete ou oito pessoas desataram à uma a explicar a rixa ao Surveillant,que não percebia nada do que lhe contavam e então chamou à parte um velhote de confiança para ouvir a versão dele. Saíram os dois do compartimento. Os plantons,vendo o esperado lobo transformado em cordeiro,brandiam os revólveres em torno de Jean e ameaçavam-no na desprezível e vil linguagem que os plantons usam com aqueles que podem brutalizar. Jean não parava de repetir debilmente "laissez-moi tranquille. Ils voulaient me tuer".
O peito estremecia terrivelmente com os soluços profundos.

O Surveillant voltou e fez um discurso,a dizer que tinha recebido independentemente uma das outras as versões de quatro homens,que delas se concluía que le nègre era absolutamente o culpado,que le nègre tinha causado um imperdoável transtorno às autoridades e que como castigo o nègre iria agora sofrer as consequências da sua culpa no cabinot."

E. E. Cummings, O Quarto Enorme

miséria...

"Na altura pareceu-me intensamente interessante que,no caso de um certo tipo de seres humanos,que quanto mais cruéis são os sofrimentos que lhes são infligidos mais cruéis eles se tornam para com os que têm a infelicidade de serem mais fracos ou mais miseráveis do que eles. Ou talvez devesse dizer que quase todos os seres humanos,colocados em situações suficientemente miseráveis,irão reagir de vez em quando a essas mesmas situações( causa da mutilação da sua personalidade  )através da deliberada mutilação de outra personalidade mais fraca ou já mais mutilada. Diria mesmo que isto é absolutamente óbvio. Não estou a dizer que seja alguma descoberta. Pelo contrário,limito-me a afirmar aquilo que me interessou particularmente durante a minha estadia em La Ferté : estou a dizer que me tocou extremamente ver que,por mais ocupados que mantenham sessenta homens a sofrer em comum,há sempre um ou dois ou três que conseguem sempre arranjar tempo para fazer alguns dos seus camaradas gozar um pequeno sofrimento extra."

E. E. Cummings, O Quarto Enorme [pag 266]

Aquilo que nos distingue

Uma boa leitura.


A minha achega, é que aquilo que nos define como humanos, o que nos distingue das outras espécies e nos faz ganhar distância delas, reside nas formas do nosso comportamento violento (não, na nossa inteligência).

Comportamentos como a arrogância, o 'self entitlement', a capacidade de ser cruel, apenas porque sim, a vontade/capacidade de castigar (apenas com o intuito manipulativo de impor alguma moralidade ou capricho).

A necessidade de mostrarmos que nos identificamos com determinados grupos sociais, nem que, para isso tenhamos que adoptar comportamentos cruéis enquanto códigos de identificação (tanto na esfera pública – guerras –, como na esfera privada).
"Eu quero identificar-me contigo, e para o provar vou fazer mal ao teu inimigo".

Direi que a nossa capacidade de usar a crueldade como um instrumento nos define mais como humanos do que a nossa inteligência ou sensibilidade.



Diet and cancer

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do tempo...

 



O que sei do tempo


Espera-se. O tempo apaga muitas coisas e é como o

vento que traz coisas que não se espera, quando se

espera coisas que não traz.


H. L. S. Maia, Porto, 18 Dez 1957

Caminhar, uma repetição

 "Caminhar faz aflorar aos lábios de forma natural uma poesia repetitiva, palavras simples como o ruído de passos num trilho. Podemos encontrar um outro eco da caminhada na prática do canto de salmos nos chamados "coros alternados", em que um coro canta (numa só nota) um verso e o outro responde-lhe. Esta prática coral permite a alternância do canto e da escuta. Acima de tudo, ela gera um efeito de repetição que Santo Ambrósio compara com o rumor do mar: quando as vagas se quebram suavemente junto à costa, a regularidade do som não só não rompe o silêncio, mas ritma-o e torna-o mais audível. É assim com a salmodia, que no vaivém das respostas alternadas produz na alma, diz Ambrósio, uma quietude feliz. Estes cânticos em eco, o fluxo e refluxo das vagas, assemelham-se ao movimento alternado das pernas na caminhada. Nesse caso, não se trata de quebrar, mas de ritmar e tornar sensível a presençado mundo. Tal como Claudel escreveu que o som torna o silêncio acessível e útil, importaria dizer que a caminhada torna a presença acessível e útil.

Há na caminhada um poder imenso da repetição do Mesmo."

Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros

Caminhar

"Platão propõe a metáfora da lamparina. Para atendê-la, é preciso fornecer-lhe uma chama do exterior. A centelha são os livros.  O que se obtém do seu contacto frequente não é a possibilidade de enceleirar aquisições, como um tesouro de verdades que aumentaria a cada leitura (a cada "aquisição" de conhecimentos), mas a possibilidade de se obter combustível. Chega o momento, diz Platão, em que o pensamento se alimenta da alma, qual chama de óleo na lamparina. Tem o bastante para durar, para que a chama brilhe sem que seja preciso reacender incessantemente a mecha. O pensamento acaba por se alimentar da alma. Por conseguinte, podemos subtrair os livros sem que a filosofia se extinga.

O caminhante nunca tem a paisagem diante de si. Não é o viajante apressado que salta da viatura, olha, assinala, avalia, tira a sua fotografia e volta a partir com a "captura" — esteve ali, viu, tem a prova. Um vestígio já morto, contabilizável em pixeis.

Pelo contrário, o caminhante envolve a paisagem e é por ela envolvido. Mescla os vincos. De resto, quase não a vê. Respira-a, inspira-a e expira-a por todos os poros, a cada passo que dá.  A presença das colinas sedimenta-se suavemente nele como uma erosão invertida: ele retém-nas no seu corpo. A caminhada reqflecte o corpo na paisagem (e inversamente), como a filosofia reflecte a alma no pensamento. O caminhante e o filósofo debatem-se com o mesmo enugma: o da presença. A resolução passa por nela permanecer longamente, penetrá-la de forma interminável, habitá-la. O filósofo tem com os seu conceitos a mesma relação que o caminhante tem com a paisagem. Não há outra recompensa a esperar que não a familiaridade."

Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros

How not to age