"O mais doloroso era ter de guardar no íntimo todo o sofrimento. Não me sentia no direito de me queixar — aliás, ninguém teria compreendido que o fizesse. E ele, durante esse tempo, deixara de me dar parte de tudo o que o agitava, de tudo o que o atormentava. Daí em diante, era a outros que confiava as suas emoções, as suas dores, as suas ilusões, as suas decepções. Quanto a mim, ele não poderia suportar a ideia, disso estava certa, de que eu pudesse sofrer com qualquer faceta da minha vida. O meu marido tinha necessidade de me julgar insensível, inalterável, tão sólida como uma rocha. A rocha na qual se apoiava. Era uma esposa perfeita, uma mãe perfeita. Um prodígio de equilíbrio e de bom-senso. E, aos olhos de todos, constituíamos uma família ideal.
Mas, então, eu já não podia desempenhar aquela comédia. Chegara ao limite.
A mãezinha teve, então, uma reacção pasmosa. Desatou a rir. Como podia ela?... De mim, que lhe tinha confiado toda a minha dor, todo o meu desgosto?... Olhava-a, siderada. Ela abraçou-me.
— Não estou a fazer troça de ti, minha filha — murmurou. — Mas devo confessar que acho divertido ver a que ponto o teu marido, o ateu do teu marido, se conduz exactamente como o mais dos ortodoxos. Com certeza sabes, ou talvez te tenhas esquecido, que é isso que, nos talmudistas, se exige duma mulher: fazer tudo para que o marido tenha tempo de sobra para estudar. Ele, não sei o que ele estuda, mas com certeza que, para si, tem o mesmo valor que o Talmude para os nossos barbudos.
Olhou-me meigamente e, com um gesto muito doce, enxugou uma lágrima que me corria pela cara. Não me disse mais nada sobre o assunto."
Nicolle Rosen, in Martha Freud
Humanos, demasiado humanos
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