"Que é o cérebro humano senão um palimpsesto imenso e natural? O meu cérebro é um palimpsesto e o vosso também, leitor. Inúmeras camadas de ideias, de imagens, de sentimentos caíram sucessivamente sobre o vosso cérebro, tão suavemente como a luz. Cada uma parecia sepultar a anterior. Mas na realidade, nenhuma pereceu."
Baudelaire citando De Quincey, in Paraísos Artificiais
"Todavia, entre o palimpsesto que apresenta, sobrepostas uma na outra, uma tragédia grega, uma lenda monástica e uma história de cavalaria, e o palimpsesto divino criado por Deus, que é a nossa incomensurável memória, há a diferença de que no primeiro existe como que um caos fantástico, grotesco, uma colisão entre elementos heterogéneos, ao passo que no segundo a fatalidade do temperamento põe forçosamente uma harmonia entre os elementos mais díspares. Por mais incoerente que seja uma existência, a unidade humana não é perturbada. Todos os ecos da memória, se se pudessem acordar simultâneamente, formariam um concerto, agradável ou doloroso, mas lógico e sem dissonâncias.
Muitas vezes, seres surpreendidos por um acidente súbito, sufocados bruscamente pela água, e em perigo de morte, viram acender-se no cérebro todo o teatro da sua vida passada. O tempo foi aniquilado, e alguns segundos bastaram para conter uma quantidade de sentimentos e de imagens equivalentes a anos. E o que há de mais singular nesta experiência, que o acaso preparou mais uma vez, não e a simultaneidade de tantos elementos que foram sucessivos, é a reaparição de tudo o que o próprio ser já não conhecia, mas que é no entanto obrigado a reconhecer como seu. O esquecimento é apenas momentâneo; e em tais circunstâncias solenes, na morte talvez, e geralmente nas excitações intensas criadas pelo ópio, todo o imenso e complicado palimpsesto da memória se desenrola de uma só vez, com todas as suas camadas sobrepostas de sentimentos defuntos, misteriosamente embalsamados naquilo a que chamamos esquecimento."
Baudelaire, in Paraísos Artificiais
"Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia."
Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"A consciência não se resume a imagens mentais. Terá, no mínimo, a ver com uma organização de conteúdos mentais centrada no organismo que produz e motiva esses conteúdos. Porém, a consciência, no sentido vivido pelo leitor e pelo autor sempre que o desejam, é mais do que uma mente que se organiza sob a influência de um organismo vivo e activo. [...] A grandiosa peça sinfónica que é a consciência engloba as contribuições fundamentais do tronco cerebral, eternamente ligado ao corpo, e a vastíssima imagética criada graças à colaboração entre o córtex cerebral e as estruturas subcorticais, todas unidas de forma harmoniosa, propulsionadas para o futuro, num movimento contínuo que apenas pode ser interrompido pelo sono, pela anestesia, pela função cerebral ou pela morte."
António Damásio, in O livro da Consciência

No comments:
Post a Comment