Não era por gosto das estelas funerárias, nem para perfazer conhecimentos metafísicos no decurso de subtis conversações com os mortos, que o letrado Karamallah tinha escolhido domicílio neste cemitério de renome mundial desde que milhares de sem-abrigo aqui se haviam instalado sem pedir autorização a ninguém. Aliás, ninguém se preocupou com esta deslocação de miseráveis para um lugar reservado ao repouso eterno, excepto talvez alguns defuntos atrabiliários e inimigos do género humano. Para Karamallah, a escolha de tão austera residência tinha por origem o despotismo de um governo impermeável ao humor e ferozmente hostil a toda a informação de algum modo relacionada com a verdade. Condenado à prisão e proibido de publicar por insultos a um chefe de estado estrangeiro, vira-se privado, ao sair da prisão, de toda a actividade literária rentável e, ainda por cima, perseguido diariamente por uma chusma de credores mal educados. Se bem que confiante no inelutável desfecho de todas as tragédias, pareceu-lhe divertido assestar um golpe fatal nos seus opressores, desaparecendo sem deixar morada. Num momento de extrema euforia, lembrou-se de que possuía em herança um bem inalienável ao abrigo dos meirinhos e dos predadores da justiça. Esta herança, infelizmente improdutiva, não era outra senão o mausoléu familiar, erguido neste célebre cemitério que se tornara em poucos anos um sítio turístico para estrangeiros fartos de vestígios faraónicos. No dia seguinte a ter esta iluminação, Karamallah deixou o seu apartamento no centro da cidade e, com a ajuda de um carroceiro conhecido, fez transportar alguns móveis para o mausoléu e aí se refugiou à espera de que os seus aborrecimentos se diluíssem no imenso infortúnio universal. Albert Cossery, in As Cores da Infâmia

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