Facing that void

As palavras de Nietzsche fluíam agora. Parecia preparado para discursar durante horas sobre o assunto.

— A minha doença também me confrontou com a realidade da morte. Durante algum tempo, acreditei que sofresse de uma doença incurável que me mataria numa idade prematura. O espectro da morte iminente tem sido uma grande bênção: tenho trabalhado sem parar, com medo de morrer antes de conseguir acabar o que tenho que escrever. Além disso, uma obra de arte não será maior com um final catastrófico? O gosto da minha morte na boca deu-me perspectivas e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo. Serei um professor? Um filólogo? Um filósofo? Que importa?

O ritmo de Nietzsche acelerou. Parecia satisfeito com o seu fluxo de pensamentos.

— Obrigado, doutor. Breuer. Conversar com o senhor ajudou-me a consolidar essas ideias. Sim, eu deveria abençoar a minha doença. Para um psicólogo, o sofrimento pessoal é uma bênção: o campo de treino para encarar o sofrimento da existência.

Nietzsche parecia absorto numa qualquer visão interior e Breuer já não sentia que estivessem embrenhados numa conversa. Esperava, a qualquer minuto, que o paciente pegasse em papel e lápis e começasse a compor.

Não obstante,
Nietzsche olhou para cima e falou-lhe mais directamente:

— Lembra-se da minha máxima, na quarta-feira: "Transforma-te em quem tu és?" Hoje, dir-lhe-ei a minha segunda máxima: "
Tudo o que não me mata, fortalece-me." Assim, repito: a minha doença é uma bênção.

Quando Nietzsche Chorou, Irvin Yalom

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