Um homem não chora / Mestres do disfarce

Imagine, por um instante o que seria crescer numa casa onde não houvesse a mínima empatia. Conceba um lugar onde os seus pais exigissem que estivesse sempre alegre, feliz e calmo. Nessa casa, a tristeza ou a ira seriam encarados como sinais de falhanço ou como indicadores de um desastre potencial. A mãe e o pai ficariam ansiosos sempre que o encontrassem numa das suas fases mais escuras. Dir-lhe-iam que gostavam mais de o ver contente e optimista, a olhar para o lado positivo das coisas, sem nunca se queixar, sem nunca dizer mal de nada nem de ninguém. Você, como criança, assumiria que os seus pais estavam certos. Assim, estar mal disposto seria o equivalente a ser uma criança má. Teria de dar mesmo o seu máximo para conseguir viver ao nível das expectativas deles.

O problema está no facto de continuarem a acontecer imensas coisas nas nossas vidas, o que torna praticamente impossível mantermos uma fachada feliz todo o tempo. É a irmã mais nova que nos entra pelo quarto e dá cabo da nossa colecção de banda desenhada. Na escola vimo-nos de repente metidos num sarilho por qualquer coisa que não fizemos e o nosso melhor amigo deixa-nos levar a reprimenda toda e nem se acusa. Todos os anos entramos no concurso de ciências, e ano após ano, o nosso projecto é um fracasso completo. Depois foram aquelas horríveis férias em família de que a mãe e o pai andaram a falar durante meses. No final acabou por ser uma viajem interminável de carro a ouvir a mãe a cantar as glórias de todos aqueles cenários "lindíssimos" e o pai constantemente a dissertar sobre todos aqueles locais históricos "fascinantes".

Mas não nos devemos deixar perturbar por essas coisas. Se dissermos que a nossa irmã é uma peste, a mãe logo diz, "É claro que não queres dizer isso!" Se falarmos do incidente da escola, o pai logo exclama: "Fizeste qualquer coisa, com certeza, para provocar o professor." Desastres nos projectos de ciências? É bom nem sequer falar nisso. ("Depois da fortuna que o teu pai e eu gastámos para vos levar a Utah...")

Passado algum tempo aprendemos a manter a boca fechada. Se vimos da escola com um problema, vamos para o nosso quarto e pomos uma cara alegre. Não vale a pena preocuparmos o pai e a mãe. Eles odeiam problemas.

Ao jantar o pai pergunta, "Então, como é que foi a escola hoje"?
"Tudo bem", respondemos com um meio sorriso.
"Óptimo, ainda bem", responde ele. "Passa aí a manteiga."

E o que é que nós aprendemos enquanto crescemos nesta casa de fingir? Em primeiro lugar aprendemos que não somos de todo como os nossos pais, porque, ao que parece, eles não têm aqueles sentimentos perversos e perigosos que nós temos. Aprendemos que com aqueles sentimentos, nós é que devemos ser o problema. É a nossa tristeza que nos impede de sermos felizes. A nossa ira é um embaraço para a família. Os nossos medos são um obstáculo para o seu progresso. O mundo da família se calhar era capaz de até ser perfeito, não fôssemos nós e as nossas emoções.

Com o passar do tempo aprendemos que não faz muito sentido falarmos com os nossos pais sobre a nossa vida interior. Aos poucos vamo-nos tornando solitários. Aprendemos também que enquanto simularmos a alegria, toda a gente estará muito bem.

É claro que tudo isto pode ser um pouco confuso – especialmente à medida que vamos crescendo e para nós começa a tornar-se evidente que por vezes a vida é uma valentíssima chatice. Chega o nosso dia de anos e não recebemos aquele brinquedo que mais queríamos. O nosso melhor amigo começa a ser o melhor amigo de outra pessoa e deixa-nos sozinho na fila da cantina. Vimo-nos com um aparelho nos dentes. A nossa avó favorita morre de repente.

Mas mesmo assim não é suposto sentirmos todos aqueles sentimentos maus. Desse modo acabamos por nos transformar em mestres do disfarce. Melhor ainda, fazemos o possível e o impossível para não sentir. Aprendemos a evitar situações que conduzam ao conflito, à ira e à dor. Por outras palavras, mantemo-nos à distância de qualquer relação humana mais íntima.

A negação dos nossos próprios sentimentos nem sempre é fácil, mas consegue-se fazer. Aprendemos a criar distracções, maneiras de desviar a atenção. A comida, por vezes, ajuda a dominar sentimentos desconfortáveis. A televisão e os jogos de vídeo são uma maneira espantosa de deixarmos de pensar nos nossos problemas. Com mais uns anitos em cima chega a idade em que é possível ter acesso a distracções muito reais. Entretanto, é preciso fazer o melhor possível para manter uma boa cara, fazer com que os pais estejam satisfeitos e manter tudo debaixo de controlo.

A Inteligência Emocional na Educação, John Gottman e Joan DeClaire


Para quem quiser saber mais sobre este senhor, ver aqui.

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