Meu amigo, deixa sempre uma pessoa mentir um pouco, isso é inocente. Deixa-a mesmo mentir muito. Primeiro, mostras assim a tua delicadeza; segundo, também te deixarão mentir, a ti...
Eu até diria mais: segundo, não terão argumentos para não te deixar mentir também! Ou até direi ainda mais: queres mentir, mente. A mim é-me indiferente pois a minha postura é igual quer mintas ou não. Ou ainda: mente, mente, assim estás a facilitar-me a vida. Já me sinto à vontade para justificar o meu comportamento com o teu! Uma boa forma de desculpar a minha eventual irresponsabilidade e os meus actos! Ou ainda: mente, mente, e depois verás se gostas ou se ficas surpreendido se te fizerem o mesmo (ao estilo de lição!).
A propósito disto, tirado daqui, direi que muitas das vezes (arrisco dizer, quase sempre) a mentira tem pernas muito curtas e quem está habituado a usá-la ou a conviver com ela, acaba por lhe tirar o valor. Passa a fazer parte de um estilo de postura, de atitude. É como jogar às escondidinhas. Há quem goste e conheça as regras, pois também sabe que as poderá usar. Arriscarei dizer que o uso frequente deste tipo de subterfúgios torna-nos mais desconfiados... menos inocentes.
Depois, há as várias formas que a mentira pode tomar, como a "omissão", o "desviar para canto", "o mudar de assunto", "fingir que nos esquecemos", etc
Quanto ao "deixar"... isso vale para quase tudo nesta vida. Essa delicadeza é uma virtude que não fica mal a ninguém praticar. Dar o espaço necessário ao outro para que, depois, o outro possa compreender que todos precisamos de espaço, como ele.
Não apenas, mas ainda a propósito (também) da mentira, li um livro escrito por Siri Hustvedt (mulher de Paul Auster, para quem estiver interessado em saber, embora a senhora não precisa do cartão de visita do marido), chamado "Aquilo que eu Amava". Onde ela retrata bem o tipo de desconforto que a mentira recorrente pode causar aos outros.
Siri Hustvedt sempre se interessou por medicina, neurologia, psiquiatria e isso está muito presente neste seu romance. Um romance com longas dissertações sobre arte e sobre a histeria.http://pathosnapolis.blogspot.pt/2010_01_01_archive.html

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