Diet and cancer

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do tempo...

 



O que sei do tempo


Espera-se. O tempo apaga muitas coisas e é como o

vento que traz coisas que não se espera, quando se

espera coisas que não traz.


H. L. S. Maia, Porto, 18 Dez 1957

Caminhar, uma repetição

 "Caminhar faz aflorar aos lábios de forma natural uma poesia repetitiva, palavras simples como o ruído de passos num trilho. Podemos encontrar um outro eco da caminhada na prática do canto de salmos nos chamados "coros alternados", em que um coro canta (numa só nota) um verso e o outro responde-lhe. Esta prática coral permite a alternância do canto e da escuta. Acima de tudo, ela gera um efeito de repetição que Santo Ambrósio compara com o rumor do mar: quando as vagas se quebram suavemente junto à costa, a regularidade do som não só não rompe o silêncio, mas ritma-o e torna-o mais audível. É assim com a salmodia, que no vaivém das respostas alternadas produz na alma, diz Ambrósio, uma quietude feliz. Estes cânticos em eco, o fluxo e refluxo das vagas, assemelham-se ao movimento alternado das pernas na caminhada. Nesse caso, não se trata de quebrar, mas de ritmar e tornar sensível a presençado mundo. Tal como Claudel escreveu que o som torna o silêncio acessível e útil, importaria dizer que a caminhada torna a presença acessível e útil.

Há na caminhada um poder imenso da repetição do Mesmo."

Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros

Caminhar

"Platão propõe a metáfora da lamparina. Para atendê-la, é preciso fornecer-lhe uma chama do exterior. A centelha são os livros.  O que se obtém do seu contacto frequente não é a possibilidade de enceleirar aquisições, como um tesouro de verdades que aumentaria a cada leitura (a cada "aquisição" de conhecimentos), mas a possibilidade de se obter combustível. Chega o momento, diz Platão, em que o pensamento se alimenta da alma, qual chama de óleo na lamparina. Tem o bastante para durar, para que a chama brilhe sem que seja preciso reacender incessantemente a mecha. O pensamento acaba por se alimentar da alma. Por conseguinte, podemos subtrair os livros sem que a filosofia se extinga.

O caminhante nunca tem a paisagem diante de si. Não é o viajante apressado que salta da viatura, olha, assinala, avalia, tira a sua fotografia e volta a partir com a "captura" — esteve ali, viu, tem a prova. Um vestígio já morto, contabilizável em pixeis.

Pelo contrário, o caminhante envolve a paisagem e é por ela envolvido. Mescla os vincos. De resto, quase não a vê. Respira-a, inspira-a e expira-a por todos os poros, a cada passo que dá.  A presença das colinas sedimenta-se suavemente nele como uma erosão invertida: ele retém-nas no seu corpo. A caminhada reqflecte o corpo na paisagem (e inversamente), como a filosofia reflecte a alma no pensamento. O caminhante e o filósofo debatem-se com o mesmo enugma: o da presença. A resolução passa por nela permanecer longamente, penetrá-la de forma interminável, habitá-la. O filósofo tem com os seu conceitos a mesma relação que o caminhante tem com a paisagem. Não há outra recompensa a esperar que não a familiaridade."

Caminhar, Uma Filosofia, de Frédéric Gros

How not to age