Fanny, ou don't look at me now!

"For there is something repellent in the spectacle of another's naked misery; it does not encourage friendship. One runs away from it."
Diz a Frances, pela mão de Anita Brookner (em "Look At Me")
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"... a teoria das cordas era tão bonita que tinha de ser verdadeira."
"Há a célebre experiência do gato de Schrödinger, em que ele defende que um fenómeno só existe depois de ser observado. [...] Nós é que construímos de facto a realidade através da observação, nós é que lhe damos sentido. Quando observamos não conseguimos tirar a nossa consciência como quem tira um sobretudo. Nunca saberemos como é o mundo real, e até que ponto ele coincide com aquele que construímos através da observação e com recurso à linguagem."
Manuel António Pina, aqui.
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Verdades incontestáveis


"Um idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive. Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir."
Albert Cossery
"Nunca ele está mais activo do que quando nada faz, nunca está menos só que quando a sós consigo mesmo."
Catão
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de volta ao labor / Escaping melancholia / Crise

"O último estágio de uma sociedade de operários, que é a sociedade de detentores de empregos, requer dos seus membros um funcionamento puramente automático, como se a vida individual tivesse realmente sido afogada no processo vital da espécie, e a única decisão activa exigida do indivíduo fosse deixar-se levar, por assim dizer, abandonar a sua individualidade, as dores e as penas de viver ainda sentidas individualmente, e aquiescer num tipo funcional de conduta entorpecida e "tranquilizada". [...] É perfeitamente concebível que a era moderna — que teve início com um surto tão promissor e tão sem precedentes de actividade humana — venha a terminar na passividade mais mortal e estéril que a história jamais conheceu."
Hanna Arendt, in A Condição Humana
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do prazer e da dor
"Se...perguntares porque razão (alguém) deseja a saúde, ele responderá prontamente: porque a doença é dolorosa. Se insistires em saber mais e pedires uma razão pela qual ele odeia a dor, ele não te poderá apresentar nenhuma. (A dor) é um fim último, sem qualquer subordinação a outro objecto."
Hume, citado por Halévy, citado por Hanna Arendt, in A Condição Humana
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Dylan niilista
It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)
Darkness at the break of noon
Shadows even the silver spoon
The handmade blade, the child’s balloon
Eclipses both the sun and moon
To understand you know too soon
There is no sense in trying
Pointed threats, they bluff with scorn
Suicide remarks are torn
From the fool’s gold mouthpiece the hollow horn
Plays wasted words, proves to warn
That he not busy being born is busy dying
Temptation’s page flies out the door
You follow, find yourself at war
Watch waterfalls of pity roar
You feel to moan but unlike before
You discover that you’d just be one more
Person crying
So don’t fear if you hear
A foreign sound to your ear
It’s alright, Ma, I’m only sighing
As some warn victory, some downfall
Private reasons great or small
Can be seen in the eyes of those that call
To make all that should be killed to crawl
While others say don’t hate nothing at all
Except hatred
Disillusioned words like bullets bark
As human gods aim for their mark
Make everything from toy guns that spark
To flesh-colored Christs that glow in the dark
It’s easy to see without looking too far
That not much is really sacred
While preachers preach of evil fates
Teachers teach that knowledge waits
Can lead to hundred-dollar plates
Goodness hides behind its gates
But even the president of the United States
Sometimes must have to stand naked
An’ though the rules of the road have been lodged
It’s only people’s games that you got to dodge
And it’s alright, Ma, I can make it
Advertising signs they con
You into thinking you’re the one
That can do what’s never been done
That can win what’s never been won
Meantime life outside goes on
All around you
You lose yourself, you reappear
You suddenly find you got nothing to fear
Alone you stand with nobody near
When a trembling distant voice, unclear
Startles your sleeping ears to hear
That somebody thinks they really found you
A question in your nerves is lit
Yet you know there is no answer fit
To satisfy, insure you not to quit
To keep it in your mind and not forget
That it is not he or she or them or it
That you belong to
Although the masters make the rules
For the wise men and the fools
I got nothing, Ma, to live up to
For them that must obey authority
That they do not respect in any degree
Who despise their jobs, their destinies
Speak jealously of them that are free
Cultivate their flowers to be
Nothing more than something they invest in
While some on principles baptized
To strict party platform ties
Social clubs in drag disguise
Outsiders they can freely criticize
Tell nothing except who to idolize
And then say God bless him
While one who sings with his tongue on fire
Gargles in the rat race choir
Bent out of shape from society’s pliers
Cares not to come up any higher
But rather get you down in the hole
That he’s in
But I mean no harm nor put fault
On anyone that lives in a vault
But it’s alright, Ma, if I can’t please him
Old lady judges watch people in pairs
Limited in sex, they dare
To push fake morals, insult and stare
While money doesn’t talk, it swears
Obscenity, who really cares
Propaganda, all is phony
While them that defend what they cannot see
With a killer’s pride, security
It blows the minds most bitterly
For them that think death’s honesty
Won’t fall upon them naturally
Life sometimes must get lonely
My eyes collide head-on with stuffed
Graveyards, false gods, I scuff
At pettiness which plays so rough
Walk upside-down inside handcuffs
Kick my legs to crash it off
Say okay, I have had enough, what else can you show me?
And if my thought-dreams could be seen
They’d probably put my head in a guillotine
But it’s alright, Ma, it’s life, and life only
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Uma aula sobre Moby Dick / Deuses, heróis e estados de espírito

Hubert Dreyfus dá uma aula em que disseca a obra de Herman Melville:
Palavras e ideias chave:
Panteão de deuses.
Espectro de estados de espírito.
Superpoliteísmo.
Ulisses / Homero
A ideia de irrepresentável.
Niilismo heróico.
Ausência de raízes.
A dicotomia do livro encontra-se na forma como exprime o caos indeterminado e, por outro lado, a necessidade de algo sólido, utilizando comparações entre a terra e o mar.
Being open to cross cultural sacredness is a good religion.
In the landlessness alone resides the highest truth. Shoreless, indefinite is God. God is the groundlessness. It makes everything endlessly interpretable.
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"I got more called into phenomenology, where the important thing is to describe the experience involved"
Uma interessantíssima entrevista com Hubert Dreyfus
"We are crucified on the conflict between body and mind" (Dreyfus sobre Pascal, em resposta a Descartes)
"The self is a contradiction" (Dreyfus cita Kierkegaard)
"You have to take advantage of the accidents that come along and follow them" (Dreyfus fala sobre o acto de ensinar)
"Trust luck and trust "the calling". You can't get a grip on the world by holding on to principles, rules, plans and so forth. Be ready to take risks and be open to the thing that's trying to grab you and go with it.."
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anti heróis
[...] No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be
[..] I have heard the mermaids singing, each to each.
[...] I do not think that they will sing to me.
The Love Song of J. Alfred Prufrock, T. S. Eliot
Uma tradução do poema:
S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável…
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti.
Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
Tempo de virar costas e descer as escadas
Com esta clareira calva no meio do cabelo –
(Hão-de dizer: “Este já tem pouco cabelo!”)
Com a casaca, colarinho hirto subido até ao queixo,
Gravata distinta e discreta mas ornada de um sóbrio alfinete –
(Hão-de dizer: “Que magro está, nos braços e nas pernas!”)
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.
Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres,
E quando eu for apenas fórmula, esticado em alfinete,
Quando estiver na parede, trespassado, contorcido,
Como haverei então de começar
A cuspir as pontas de cigarro dos meus dias e jeitos?
E como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os braços, conheço todos –
Braceletes nos braços brancos e nus
(Mas com uma penugem loira à luz do candeeiro)
Será pelo perfume de um vestido
Que sou levado assim a divagar?
Braços estendidos na mesa ou envoltos num xaile.
E havia eu de ousar assim?
Por onde havia eu de começar?
E se eu disser que dou passeios por becos quando anoitece,
E vou fitando o fumo que sobe do cachimbo
De homens em mangas de camisa, à janela, solitários?…
Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio.
E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir… exausta… ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já) ser entregue numa salva,
Não sou nenhum profeta – e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.
E tinha valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
Se alguém, ajeitando a cabeça dela numa almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer
Não é isso, nada disso.”
E tinha valido a pena, depois de tudo,
Tinha mesmo valido a pena,
Depois dos pátios, dos poentes, das ruas chuviscadas,
Dos romances, das xícaras de chá, das saias arrastando pelo chão –
E depois disto e tantas coisas mais? –
Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos nervos:
Tinha valido a pena
Se alguém, compondo a almofada ou tirando um xaile,
Dissesse, ao voltar-se para a janela:
“Não é isso, nada disso,
Não era nada disso que eu queria dizer.”
Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtuso todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo –
Quase o bobo, às vezes.
Estou a ficar velho… Estou a ficar velho…
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.
E se eu puxar atrás o risco do cabelo?
Arrisco-me a trincar um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.
Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.
Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.
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The Cremaster Cycle: visto
A entrevista com Matthew Barney
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Minimal contemplativo

[...] os próprios trabalhadores apresentam uma razão inteiramente diferente para a sua preferência pelo trabalho repetitivo. Preferem-no porque é mecânico e não requer atenção, de modo que, ao executá-lo, podem pensar noutra coisa.
Hannah Arendt, in A Condição Humana
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Eram muitas vezes...

"Todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história ou contamos uma história a seu respeito."
Isak Dinesen
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